O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pegou uma discussão indigesta ao vestir a carapuça das críticas contra o uso do milho para fabricação de etanol. Tudo indica que poderia defender a posição brasileira favorável à substituição de derivados de petróleo por etanol de biomassa e para isto não lhe faltariam argumentos. Não precisava, entretanto, falando no exterior e em mais de uma ocasião, considerar que as preocupações da Organização das Nações Unidas (ONU) e de seu braço para a Agricultura e a Alimentação (FAO) com a substituição de áreas de plantio de alimentos por biomassa para a fabricação de combustíveis foram um ataque frontal à posição brasileira, país pioneiro na produção de álcool a partir da cana-de-açúcar.

Como foi amplamente noticiado em todo o mundo, de 3 a 5 de junho, em Roma, a FAO reunirá seus membros, chefes de Estado e de governo de 191 países, numa conferência que terá como tema a segurança alimentícia mundial. A FAO, de acordo com seu diretor-geral Jacques Diouf, considera que a alta dos preços dos alimentos produz um impacto violento na segurança de muitos povos. Cita, por exemplo, os distúrbios que estão havendo no Haiti, Mauritânia, Camarões, Burkina Faso, Etiópia, Indonésia, Egito, Marrocos, Costa do Marfim, Madagascar, Senegal e Filipinas. No Paquistão e na Tailândia as Forças Armadas estão vigiando os depósitos de alimentos. Nesses países, a alta nos preços dos alimentos, inclusive do milho, mas também do trigo, provocou a revolta popular e ondas de fome.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial (Bird), também compactua da opinião de que o forte aumento da produção de biocombustíveis nos Estados Unidos e na Europa é fator determinante do aumento dos preços dos alimentos. ?Os biocombustíveis são, sem dúvida, um dos responsáveis pelo aumento da demanda de produtos alimentares?, declarou Zoellick em entrevista que concedeu nos Estados Unidos.

Veja-se que nas referências ao aumento da produção de biomassa e suas conseqüências na segurança alimentar, não há referências ao Brasil, nem ao tipo de biomassa que aqui se produz e da qual somos pioneiros e detentores da melhor tecnologia.

O Brasil, como fazem questão de frisar nossas autoridades, tem terras suficientes para a produção de alimentos e ainda de biomassa para produção de combustíveis. Verdade que essa abundância de espaço não deve nos deixar despreocupados, pois há necessidade de se estabelecer uma setorização na produção agrícola porque temos múltiplas necessidades. Necessidades que vão da reserva de terras para florestas, para pastagens e mesmo para alimentos. Seria absurdo imaginar que, porque o Brasil é rico em espaços, pode preenchê-los despreocupadamente com cana-de-açúcar.

Sair pelo mundo, de peito aberto, aceitando a denúncia de que o plantio extensivo de biomassa é um crime contra as populações mais pobres que já estão enfrentando fome é tomar a si uma responsabilidade que o Brasil não tem. Tem sim o lauréu do pioneirismo, mas não a autoridade para negar que a substituição de espaços destinados à plantação de alimentos por milho ou mesmo cana-de-açúcar para produzir combustíveis possa estar criando uma situação muito perigosa em muitos países pobres do mundo.

Em Gana, falando a jornalistas, Lula emendou suas primeiras declarações. Disse que ?as políticas de biocombustíveis só têm um equívoco, que é a decisão norte-americana de produzir álcool do milho. Certamente que isso reflete no preço de um produto que é importante para a ração animal, que é o milho?, afirmou o presidente brasileiro.

Mesmo que a substituição errada esteja sendo feita nos Estados Unidos e na Europa, ainda assim é preciso que o programa de biocombustíveis brasileiro seja acompanhado com o máximo de cuidado para que não ocorram exageros. E precisamos, ainda, nos preocupar em outras fontes de energia para as quais temos insumos naturais em abundância. A energia eólica e solar, por exemplo.