Do alto da Presidência da República, culminância que um operário e migrante nordestino pobre dificilmente ousaria alcançar, mas este alcançou, Lula tem uma visão um tanto quanto míope da realidade nacional. Mas procura caminhar certo por linhas tortas. Não se endeusa, mas agarra-se na trilha que leva a economia a alguns números positivos, para dizer que a crise não é tão grande como parece e a atual turbulência é bem menor do que seus adversários desejariam.

Essa versão otimista ele apresentou exatamente aos adversários que acusa de quererem derrubá-lo do poder, detratá-lo e não aceitam, como burguesia habituada a mandar e desmandar, que um trabalhador seja presidente da República. Falou a 22 empresários, dos maiores e mais poderosos do País, num encontro no Palácio do Planalto. Lá estavam, entre outros, Abílio Diniz (Pão de Açúcar), Jorge Gerdau (Gerdau), Márcio Artur Cypriano (Bradesco), Rogério Oliveira (IBM) e José Ermírio de Moraes (Votorantim).

A intenção do presidente, alcançada com ressalvas, pois empresários desse porte são pragmáticos e não constituem auditório tão sensível quanto aqueles aos quais Lula costuma discursar, foi mostrar que mesmo com crise política, a economia vai bem. Não está sendo contaminada. E isto interessa não só ao empresariado, como ao próprio governo, pois Lula virou a casaca com Palocci no Ministério da Fazenda e abandonou as fantasiosas teses econômicas de esquerda para seguir os rumos da economia praticada no governo FHC. Economia que sempre condenou, pois tinha pecados como a exploração do proletariado, associação com o FMI e endividamento do governo, principalmente no exterior. E ninguém tinha coragem de fazer uma moratória, a bandeira primeira da economia petista, enrolada e guardada a sete chaves tão logo o PT chegou ao poder e viu que governar é muito diferente que discursar sem maiores responsabilidades. Criticar sem a obrigação de resolver.

A idéia, da qual a reunião de Lula com os empresários pretendeu ser um primeiro passo, foi preparar o terreno para o que se está chamando de agenda positiva. Mostrar uma economia crescendo e vacinada contra os escândalos e um entendimento situacionismo-oposição, de forma a que importantes projetos que estão esperando nas gavetas sejam tocados adiante, mesmo que os atuais e novos escândalos continuem corroendo as forças e a moral do governo, do Congresso e dos partidos.

Quem resumiu bem a reação dos empresários que ouviram Lula nesse encontro foi o presidente da Confederação Nacional da Indústria e deputado federal pelo PTB, Armando Monteiro Neto. Advertiu que ?não se blinda a economia com discursos e medidas artificiais?. Poderíamos concluir que, apesar de tudo, a economia vai menos pior que a política. Mas não podemos nos esquecer que, numa de suas falas, Lula reconheceu que nossa economia é vulnerável. E, logo depois dele, o próprio ministro Palocci exarou a mesma opinião.

Resumindo, ou acabamos com a crise política ou corremos o risco de, como a saúva, ela acabar com o Brasil.