Estão nos descobrindo

É fácil detectar defeitos no presidente norte-americano George Bush. Mais do que isso, é possível enquadrá-lo em mais de um artigo de algum código de defesa dos direitos humanos. O que não se pode ignorar, entretanto, é que, num país marcado por problemas raciais, ele já nomeou nada menos de dois secretários de Estado (cargo equivalente a ministro das Relações Exteriores) negros. E hoje essa que deve ser considerada a mais importante pasta do seu governo é ocupada por representante da raça negra e, ainda, mulher.

Aberto o parêntese porque relevante, examinemos a importância da visita que Bush mandou a secretária de Estado, Condoleezza Rice, realizar ao Brasil, justamente quando Lula mandava para os Estados Unidos o ex-todo-poderoso e em processo de recuperação José Dirceu.

O governo dos EUA vem abrindo, mundo afora, frentes de inimigos e já não se pode contar nem nos dedos de uma mão os governos que podem ser considerados seus amigos de fato. Ele encetou duas guerras por motivos inventados, sendo responsável pela morte de milhares de pessoas, entre homens, mulheres e crianças. E de muitos norte-americanos que enviou ao Oriente para o que considera sua missão: salvar ou implantar a democracia.

Aqui, sempre quis a organização da Alca, uma aliança comercial que seria vantajosa quase que exclusivamente para os Estados Unidos e, por isso mesmo, é ou criticada ou objeto de muitos pontos de interrogação.

Eis que de repente o ex-metalúrgico e líder de esquerda latino-americano Luiz Inácio Lula da Silva, depois de dois anos de governo bem comportado aos olhos do FMI e de Wall Street, começa a fazer aproximações com os países do terceiro mundo. Aqui, na América Latina, estreita relações com os governos anti-americanos da Venezuela e de Cuba e ainda estende a mão, num gesto diplomático, mas que pode ser interpretado como de amizade, ao governante derrubado do Equador, país onde os Estados Unidos não são vistos com bons olhos.

Entende-se porque deslocar uma Condoleezza para Brasília, para manter conversas fiadas, verdadeiros monólogos tanto com o nosso ministro das Relações Exteriores como com o próprio Lula. Em tudo o que mais interessava a Bush, e aí leia-se Alca e um posicionamento menos íntimo com os governantes latino-americanos de esquerda, quando a secretária de Estado falava, o interlocutor brasileiro silenciava. Quando este falava, silenciava ela. Isto significa que estamos ainda distantes do desejado diálogo. Desejado principalmente por Bush.

Mas a simples presença de Condoleezza comprova que a política externa de Lula, considerada demasiado atrevida por alguns líderes mundiais e não poucos analistas e críticos, está dando certo. Se ainda não nos estão ouvindo, pelo menos já demonstraram que esperam poder nos falar. E que já não somos tão pouco importantes a ponto de colocarem Buenos Aires como nossa capital e cobras nas avenidas de São Paulo e Rio. O Brasil para eles agora existe e importa.

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