Que o PT tinha projeto de ficar no poder bem mais tempo do que este mandato de quatro anos de Lula era mais ou menos imaginável. Agora, entretanto, sai da boca do próprio presidente esta pretensão: o governo não quer uma economia para apenas um mandato, disse ele ao defender enfaticamente a política econômica que a duras penas vem seguindo, sob a crítica mesmo de ter se transformado na continuidade do governo anterior, isto é, que derrotou nas urnas.

Não é de todo má para o País essa estratégia. É preferível um governo que pense a longo prazo que um outro que trabalhe apenas para seus próprios índices de popularidade. Lula, por exemplo afirma que pretende inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento em que a inclusão social seja ao mesmo tempo o motor e o resultado. Assim seja. Faria isso, segundo voltou a repetir, sem pacotes ou planos econômicos, honrando o pagamento da dívida pública e operando as reformas que prometeu (falta a trabalhista, a agrária e a política).

Trata-se, conforme advertiu, de um caminho em que não há milagres e que precisa ser construído dia a dia pelo esforço consciente de cada um e de todos nós. “Um caminho que é incompatível com planos supostamente milagrosos, com pacotes aparentemente mágicos” ou, como prefere o presidente, “com atalhos inexistentes para o progresso e a justiça”. É bom ouvir isso um dia depois de ler a apocalíptica profecia do ministro José Dirceu, da Casa Civil, pregando um anacrônico pacto nacional para enfrentar crises internacionais ainda inexistentes.

Dizem os exegetas do governo que uma das coisas positivas do governo Lula é exatamente a manutenção – ou continuidade, como queiram – da política econômica antes adotada. E isto está acontecendo apesar do bombardeio cerrado de parcela expressiva do próprio PT e dos aliados, que clamam por mudanças. Desde a expulsão da ala mais “radical” exatamente por discordar dela, até o último pronunciamento mudancista, realizado pelo ex-presidente Itamar Franco, atual embaixador do Brasil em Roma, a equipe econômica chefiada pelo ministro Antônio Palocci mantém-se inalterada e calmamente rechaça ataques e provocações.

É nesta política econômica, que para alguns é trava e amarra de sonhos imediatistas, que o presidente Lula ancora sua esperança pessoal de um tiro mais longo no Planalto. Com ela e nela vê a oportunidade de manutenção de muitas promessas suas (a dobra do valor do salário mínimo, o milagre da multiplicação de empregos, a erradicação completa da fome, para citar apenas algumas), que já sabe não poder cumprir ao longo de “apenas” quatro anos de governo. Assim, mantém o discurso original em que está treinado, apenas atirando para horizontes mais distantes a oportunidade de ingresso no paraíso para milhões de desesperançados.

Mas o Brasil, que embarcou na canoa da “vontade política” de Lula, precisa disso. O que antes parecia que seria resolvido por um truque ou passe de mágica, agora é coisa para longos períodos de muita paciência, bastante insistência e um pouco de teimosia e desapego. Nada mais como aquele rompante de oratória que colocava no pelourinho todos os governos que por aqui passaram, desde o nosso “descobrimento” ou, como alguém chegou a dizer, essa “mania do marco zero” em tudo. Isso já seria um grande progresso.

Resta saber se esse novo discurso, por acaso desenhado na antevéspera da vistosa e barulhenta comitiva em visita à China, conseguirá sobreviver aos resultados (quaisquer que sejam eles) das urnas nas próximas eleições municipais. Afinal, até aqui se dizia que o único projeto do PT no governo era exatamente o de poder. Pelo novo evangelho de Lula, o projeto vai muito além e é, aparentemente, incompatível com a antiga doutrina. Exceto se se tratar de outra mutação da estrela, tipo aquela que marcou a passagem do PT-oposição para o PT-governo… sem medo de guinadas imprevistas e, em último caso, de traição ao eleitor.