Nos tempos da inflação galopante, rodava a chamada ciranda financeira. Existiam diversos meios de aplicação de dinheiro a juros, mais correção monetária, que, se não davam os enormes lucros apregoados, pois estes eram apenas nominais, pelo menos corrigiam a desvalorização do dinheiro. E acrescentavam um pequeno lucro. Quem tinha recursos, defendia-se nessa ciranda. Quem não tinha, via seus parcos ganhos diluírem-se já nos primeiros dias do mês, pouco depois de recebido o salário.

A inflação elevada castiga os pobres. Os ricos e remediados defendem-se e alguns até conseguem ganhar dinheiro na especulação financeira.

Os juros nominais, nesse tipo de quadro financeiro, são sempre elevados. Isso impede que se desenvolva outro modelo de aplicação, a de capitais, que hoje, equivocadamente, também é chamada de financeira. Culpa de alguns órgãos de divulgação que esquecem ser essencial distinguir mercado de capitais de mercado financeiro, pois neste empresta-se dinheiro a juros e naquele, o investidor compra um pedaço, mesmo que microscópico, de uma ou mais empresas, na forma de ações ou quotas de fundos de ações. E não receberá juros, mas dividendos ou “filhotes”, novas ações resultantes dos lucros auferidos pelas empresas.

O mercado de capitais só pode desenvolver-se num país que tenha juros baixos e tenha inflação nem galopante, nem troteante, mas controlada. Dividendos nas aplicações em ações precisam ser competitivos com os juros. É preciso, também, que entre os investidores haja espírito de risco, ou seja, que se queira ganhar, mas se admita também perder, se os resultados das empresas não forem positivos. E que existam empreendedores, empresários, homens ou grupos de homens que se lancem a novos empreendimentos. A ampliação de fábricas, construção de novas, estabelecimentos comerciais, de prestação de serviços, etc.

No Brasil, não temos nem uma coisa, nem outra. Não existe o espírito de risco e é fraco o sentimento empreendedor. Buscam-se garantias. E o garantido é sempre inimigo dos bons lucros.

A especulação financeira não faz um país crescer, embora colabore, de forma muito limitada, com o seu desenvolvimento. Nela, ganha-se sem trabalhar e sem produzir. Por isto, precisamos é de um mercado de lançamento de ações no mercado primário e um bom movimento bursátil, mercado chamado secundário. Para tanto, imprescindível que os juros sejam baixos e, por isso, menos atraentes para os especuladores da ciranda financeira. E que os empresários possam empreender, certos de que venderão ações e formarão capitais suficientes.

Pois nada disso está acontecendo no Brasil, embora se faça tanto alarde com os recordes bursáteis. Em 2002, os fundos sofreram um rombo imenso. Agora, recuperaram-se e já alcançam mais de R$ 500 bilhões. Que bom, pensarão muitos. Está aí o dinheiro para desenvolver o País.

Que bom se fosse! A verdade é que essa dinheirama toda está é nos fundos financeiros, de empréstimos, na ciranda financeira. Os fundos de ações continuam à míngua. Alguns tipos deles, como os chamados DI, cresceram muito. Isto significa menos dinheiro para ações e menores perspectivas de desenvolvimento econômico. E as cadernetas de poupança, que tão pouco rendem, e são seguras e cujos recursos se destinam, pelo menos no papel, para o financiamento de casas, apresentam mais saques que depósitos. Um mercado de capitais forte e um mercado financeiro adequado são caminhos que o Brasil precisa trilhar para alcançar o desenvolvimento.