A inteligência artificial dentro da sala de aula, a pressão sobre alunos e professores, o futuro do vestibular e a formação de jovens para profissões que talvez nem existam daqui a dez anos. Esses são alguns dos temas que hoje movimentam o debate global sobre educação e que já começam a transformar a realidade das escolas brasileiras.

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À frente da operação global da Rosedale International Education, organização de educação e tecnologia sediada em Toronto, Rodrigo Biazon acompanha essas mudanças de perto. Administrador de formação, Biazon tem MBAs pela FGV, mestrado em Gestão de Negócios pela ISCTE Business School (Portugal) e especialização em Marketing no Canadá. Já a Rosedale atua em mais de 20 países e oferece programas de currículo canadense integrados ao ensino médio local, permitindo que estudantes obtenham dupla certificação internacional.

Em visita ao Paraná para prospectar novas parcerias educacionais, o executivo conversou com a Tribuna do Paraná sobre educação internacional, inteligência artificial, saúde mental e os limites do modelo tradicional brasileiro. Para ele, o sistema atual já não acompanha a velocidade das transformações do mundo, e isso começa a cobrar um preço alto dentro e fora da sala de aula.

Confira a entrevista:

Tribuna do Paraná: A educação internacional deixou de ser diferencial e virou necessidade?
Rodrigo Biazon: Sim. Principalmente depois da pandemia. As famílias passaram a perceber que o aluno precisa estar preparado para um contexto global, e não apenas local. O inglês sozinho já não basta. Hoje existe uma busca muito maior por currículos internacionais, dupla certificação e experiências que preparem o aluno para circular pelo mundo.

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Tribuna: O que mudou tão rapidamente nos últimos anos?
Rodrigo Biazon: O aluno mudou. A forma como ele consome informação também. A pandemia acelerou esse processo de maneira radical. Hoje os estudantes vivem conectados globalmente, acessam conteúdos internacionais o tempo inteiro e passaram a enxergar oportunidades fora do Brasil. A escola tradicional ainda tenta responder a uma realidade que já mudou.

Tribuna: Quais competências serão mais importantes para esse novo mercado global?
Rodrigo Biazon: Pensamento crítico é a principal delas. O aluno precisa aprender a questionar, pesquisar e construir soluções. O mundo está cheio de excesso de informação e fake news. Decorar conteúdo perdeu valor. O diferencial agora é saber interpretar, analisar e tomar decisões. A educação do futuro precisa formar pessoas capazes de pensar, e não apenas repetir.

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Tribuna: A inteligência artificial mudou definitivamente a sala de aula?
Rodrigo Biazon: Mudou tudo. Mudou a forma de pesquisar, estudar, produzir conteúdo e até de ensinar. A inteligência artificial já está presente em praticamente todas as profissões, e não existe mais volta. O problema começa quando ela vira resposta pronta, em vez de ferramenta de apoio.

Tribuna: Existe um risco nisso?
Rodrigo Biazon: Existe, porque muitos alunos passaram a terceirizar o pensamento. A inteligência artificial deve ajudar na construção do conhecimento, não substituir o raciocínio humano. O desafio da educação agora é ensinar o aluno a usar essa tecnologia com consciência crítica.

Tribuna: O professor está preparado para essa transformação?
Rodrigo Biazon:  Muitos ainda estão aprendendo junto com a tecnologia, porque tudo acontece em tempo real. Existe também outro problema sério: o professor está sobrecarregado. Ele precisa cumprir conteúdo, corrigir tarefas, alimentar sistemas e lidar com salas cheias. Isso dificulta acompanhar a velocidade das mudanças.

Tribuna: O modelo tradicional brasileiro ficou ultrapassado?
Rodrigo Biazon: Eu não diria ultrapassado, mas ele parou no tempo. O currículo brasileiro mudou muito pouco nas últimas décadas, enquanto o aluno mudou completamente. Hoje temos estudantes hiperconectados sendo ensinados dentro de um modelo pensado para outra geração.

Tribuna: Qual é a consequência disso?
Rodrigo Biazon: Desengajamento, ansiedade e sensação de desconexão. O aluno muitas vezes não consegue enxergar sentido no que está aprendendo. Quando a educação perde sentido, ela deixa de cumprir sua principal função.

Tribuna: O vestibular ainda faz sentido?
Rodrigo Biazon: Eu acredito que não da forma como funciona hoje. É muito injusto resumir anos de construção acadêmica a uma única prova. Muitos países já abandonaram esse modelo porque entenderam que o aluno precisa ser avaliado ao longo da trajetória, e não apenas em um exame final.

Tribuna: O Brasil está atrasado em relação às tendências globais?
Rodrigo Biazon: O Brasil não está parado, mas está lento. Existe qualidade nas escolas brasileiras, principalmente na rede privada. O problema é que o currículo não acompanha a velocidade das transformações sociais e tecnológicas. Hoje o mundo muda em meses, enquanto a educação ainda reage em décadas.

Tribuna: A saúde mental virou um dos grandes temas da educação?
Rodrigo Biazon: Sem dúvida. E deveria ser prioridade absoluta. Muitos países já tratam saúde mental como parte central do processo educacional. O aluno está sobrecarregado, ansioso e pressionado desde muito cedo. O professor também está adoecendo.

Tribuna: O senhor acredita que isso está piorando?
Rodrigo Biazon: Sim. Os jovens estão mais isolados, mais inseguros e mais pressionados. A escola precisa voltar a ser um espaço de desenvolvimento humano, e não apenas um ambiente de cobrança e desempenho.

Tribuna: A educação internacional ainda é algo restrito à elite?
Rodrigo Biazon: Hoje muito menos. Esse mercado mudou bastante. Antigamente, um programa internacional era extremamente caro. Hoje já existem modelos mais acessíveis e integrados às escolas locais. A internacionalização da educação tende a se tornar cada vez mais democrática.

Tribuna: Como as escolas podem preparar alunos para profissões que talvez nem existam daqui a alguns anos?
Rodrigo Biazon: Elas precisam parar de preparar alunos apenas para provas e começar a prepará-los para adaptação. O mercado muda rápido demais. Muitas profissões desaparecem em poucos anos e outras surgem no lugar. O mais importante agora é formar pessoas capazes de aprender continuamente.

Tribuna: O aluno de hoje também mudou?
Rodrigo Biazon: Mudou completamente. Ele questiona mais, quer entender propósito e não aceita mais respostas prontas. Isso obriga a escola a mudar junto. O aluno deixou de ser apenas receptor de conteúdo. Hoje ele quer participar da construção do conhecimento.

Tribuna: O que mais chamou sua atenção no cenário educacional brasileiro?
Rodrigo Biazon: A qualidade das escolas brasileiras é muito melhor do que muitos imaginam. Existe infraestrutura, investimento e vontade de inovar. Mas também existe um excesso de carga sobre os alunos. Muitos estudantes vivem uma rotina extremamente pesada.

Tribuna: Isso preocupa?
Rodrigo Biazon: Sim. O aluno não precisa apenas de quantidade de conteúdo. Ele precisa de qualidade, equilíbrio e conexão com a vida real. Sem isso, a escola corre o risco de formar jovens esgotados, e não preparados.