Não fosse o elastecimento à náusea do sentimento de perda da população ante o salvo-conduto confiado a Renan Calheiros (PMDB-AL), por 40 senadores que votaram contra o relatório pedindo a cassação do mandato, além das seis abstenções, seria de exigir do presidente do Senado explanação abalizada sobre qual das vertentes da democracia saiu vencedora, segundo sua versão peculiar.

Ora, alardear a vitória da democracia é uma agressão inconcebível à consciência cívica dos brasileiros, tão-somente pela constatação do chorrilho de chicanas utilizadas do modo mais torpe para dificultar o andamento do processo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, a pressão inicial sobre relatores pelo arquivamento da matéria, culminando com a validação dos métodos obscuros de intimidação dignos de espantalhos da estirpe de Torquemada, Hitler ou Idi Amin Dada.

Uma figura moralmente paupérrima como o senador Renan Calheiros, a rigor, está desprovida das condições mínimas de confiabilidade e respeito para continuar exercendo a presidência do Senado, cuja magnitude confere ao ocupante a superior condição de terceiro nome na relação dos substitutos eventuais do presidente da República.

Mantida a situação atual, por eventualidades não estranhas à história de qualquer povo em regime de liberdade, a qualquer momento Renan poderá assumir em caráter temporário a cadeira presidencial.

Descartando a abjeção da analogia, teríamos no mais alto cargo da República um homem com a mancha indelével da dissimulação, da falta de compostura e da manipulação abusiva de falsidades entremeadas a uma verdade, que em ineludível ato falho considerou ?minha verdade?, vez que nem mesmo os peões de Muricy, onde se pratica a pecuária mais avançada do País, tiveram estômago para deglutir.

Renan sacramentou a absolvição com o voto dos que preferiram a abstenção. ?Um voto delinqüente e safado?, fulminou o líder tucano Arthur Virgílio (AM). Tudo leva a crer que a operação foi conduzida pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP), versão moderna dos condestáveis da nobreza imperial, a bem da verdade, político em queda livre desde a entregada de Duda Mendonça na CPI da Corrupção. O Senado cobriu-se de lama.