A entidade evangélica Jovens Com Uma Missão (Jocum) vem sendo acusada de interferir nas práticas culturais das comunidades indígenas do território Suruahá, em Tapauá, no sul do Amazonas. Hoje (10), a coordenadora nacional da organização, Bráulia Inês Ribeiro, afirmou que basta visitar a região para constatar que os 21 anos de trabalho missionário não alteraram a cultura dos indígenas.

Ela rebateu, em entrevista à Radiobrás todas as acusações de agressão cultural feitas pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Na última quarta-feira (8), a Funasa pediu ao Ministério Público Federal a saída do Cimi e da Jocum do território Suruahá.

"Estamos na área desde 1984 e nunca houve modificação cultural perceptível. O próprio Ministério Público Federal já foi lá há quatro anos investigar diversas denúncias e não encontrou nada", argumentou. "Os Suruahá ainda produzem a própria comida, falam apenas sua língua, vestem sua própria roupa. Tanto é verdade que a Fundação Nacional do Índio (Funai) os considera ainda uma etnia isolada".

Ribeiro ponderou que alguns indígenas começaram a usar sal e panelas de metal e a vestir roupas industrializadas na hora de ir para beira do rio (local onde há muitos piuns, uma espécie de mosquito). "A gente até denunciou esse fato ao Ministério Público Federal. Os Suruahá pegaram esses produtos em um acampamento abandonado de um órgão do governo, cujo nome eu prefiro não citar", sustentou ela.

A coordenadora informou ainda que os três casais de missionários evangélicos que se revezam na área falam a língua dos indígenas, estudam e respeitam sua cultura. Dois deles teriam mestrado em etnolinguística. Um na Universidade Federal de Rondônia e, o outro, na Universidade de Campinas (Unicamp).

Os servidores da Funasa estão há apenas três meses no território Suruahá e se comunicam com os indígenas por meio de sinais. O coordenador estadual do órgão, Francisco Ayres, entregou aos promotores indícios de que os missionários da Jocum manipulam a fala deles, na hora de traduzí-la. Como exemplo, ele citou a frase "A polícia é má", uma afirmação pouco provável para uma pessoa que vive isolada na floresta.

"Não há como fazer uma tradução literal. Na língua Suruahá, não existe palavras para polícia, para Ministério Público Federal", replicou Ribeiro. "Polícia foi usado como sinônimo de pessoas que vêm de fora e mandam neles. Para um povo que vive livre, uma proibição é vista, sim, como algo negativo".

Por fim, a coordenadora da Jocum desmentiu a nota divulgada na terça-feira (7) pelo CIMI. A nota dizia que os evangélicos teriam se estabelecido na área a convite da Funai, quando essa abriu um ramal de acesso ao território Suruahá.

"Eu publiquei um livro ( O Chamado Radical , da editora Atos) contando essa história. Tinha apenas 20 anos na época, era jovem e curiosa. Soube da existência dos Suruahá e quis conhecê-los", contou. "Só hoje os indígenas estão isolados. Na época, havia muitas comunidades de seringueiros nas proximidades".

O Ministério Público Federal ainda não se pronunciou sobre o pedido da Funasa. Caso receba uma ordem para deixar o território Suruahá, a Jocum pretende lutar na Justiça para permanecer na área.