O diretor de Engenharia da Desenvolvimento Rodoviário S/A. (Dersa), Manfred Albert von Richthofen, assassinado no dia 31 de outubro, era homem-chave na maior obra do governo de São Paulo. Ele era o diretor do projeto do trecho sul do Rodoanel, contou hoje Sérgio Luiz Gonçalves Pereira, presidente da Dersa. ?A morte dele atrapalhou o andamento do projeto do Rodoanel. Ele fez o edital, julgou as propostas e sabia tudo do assunto?, comentou Pereira. Agora o projeto está sendo tocado pela equipe de engenharia, da qual Manfred era o diretor. A Dersa não deverá nomear uma pessoa para ocupar o posto do engenheiro. ?Com o fim do governo não tem sentido chamar alguém. Nem eu mesmo sei se vou ficar aqui?, explicou Pereira.

Além do Rodoanel, Manfred dirigiu obras da Dersa na cidade de Campinas, interior do Estado. Ele foi responsável pela construção da terceira faixa da Rodovia Dom Pedro II e do anel de Campinas. Toda segunda-feira pela manhã, saía uma van da sede da Dersa , na Capital, com técnicos da empresa para vistoriar as obras do Rodoanel. Manfred e Pereira acompanhavam essa equipe e o engenheiro ia para a casa de Pereira, onde uma van passava para pegá-los.

?Ele fazia isso porque levava os filhos todos os dias para a escola. Na van, nós brincávamos com ele porque ele era santista e a maioria torcia para o São Paulo. Ele tinha respostas inteligentes e era sempre muito educado?, contou o presidente da Dersa. Pereira revelou que apesar de ter uma relação de amizade com Manfred, não conversavam sobre assuntos pessoais.

O engenheiro nunca mencionou ter problemas familiares. ?Ele nunca falou sobre problemas com os filhos para mim. Pode ser que tenha falado sobre o assunto com algum amigo mais próximo aqui da empresa, mas eu nunca tive conhecimento de nada?, disse. Pereira não conhecia os filhos de Manfred. Mas esteve em duas ocasiões com a mulher do engenheiro, também assassinada, a psiquiatra Marísia Von Richthofen, quando foi a casa de Manfred e em uma festa promovida pela Dersa para comemorar a inauguração do Rodoanel. Ele viu o filho do casal, Andreas, uma vez, na visita que fez à residência de Manfred, e conheceu Suzane quando do enterro do casal.

Alemão – Manfred nasceu em Erbach, na Alemanha, mas era naturalizado brasileiro. Tinha 49 anos. Era engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Fez especialização na área de mecânica dos solos e fundações no Institut fur Boden und Felsmecpanik, da Universidade de Karlsruhe, da Alemanha. Manfred atuou em diversas empresas e consultorias de engenharia, como a Hidroservice, Promon e CNEC.

Começou a trabalhar na Dersa em novembro de 1998 como assessor do então diretor de engenharia da empresa, Walter Nimir que o convidou. Nimir teve uma doença grave e saiu da Dersa e deixou o cargo de diretor para Manfred em junho de 2002.

Segundo Pereira, Manfred era um alemão típico: não era uma pessoa expansiva, mas tinha muito bom humor e era muito inteligente. ?Ele era cuidadoso, meticuloso com tudo. Nos trabalhos aqui, ele não falava ?eu acho que?, por isso eu o levava para as obras?, disse Pereira ao ser questionado se Manfred se preocupava muito com a segurança.

A última conversa de Pereira com o engenheiro, às vésperas do crime, aconteceu na sala do presidente da Dersa. ?Falamos à respeito de uma concorrência que ele estava conduzindo e que está para ser julgada?, afirmou.

Pereira confirmou que Suzane esteve no prédio da Dersa ontem (07) para pegar as coisas do pai, no 7º andar. Ela chegou por volta das 15h30, mas a polícia estava no local e não autorizou sua entrada na sala. ?Primeiro pensei que o crime era latrocínio, mas infelizmente fiquei em dúvida no decorrer das investigações?, disse Pereira. Ele se diz chocado e que chegou a discutir hoje de manhã com seu chofer porque o motorista havia dito que Suzane tinha confessado a participação no assassinato dos pais. ?Eu não acreditava, achava que essa menina estava sendo vítima de pressão?, apontou. A Dersa está de luto. Hoje alguns funcionários mais próximos de Manfred foram dispensados, pois não conseguiram trabalhar quando souberam que a filha de Manfred teve participação na morte dos pais. Pereira, que tem três filhas, disse não ter idéia do que levou Suzane a planejar e executar os assassinatos.

Advogado – A Dersa chegou a enviar um advogado e uma assessora de comunicação da empresa para acompanhar os filhos de Manfred durante o primeiro dia de depoimento na polícia. Segundo a assessora, Suzane parecia fria, fumava muito e lhe contou que estava nervosa e que fumava escondido dos pais. Na maior parte do tempo, de acordo com a assessora, a garota ficava quieta ou falava no celular com amigos.