Brasília  – Dois dias depois de anunciar regras mais rígidas para evitar a mistura de soja em grãos com sementes tratadas com fungicidas, o governo voltou atrás e pode desistir da proposta de “tolerância zero”. Em reunião ontem, no Ministério da Agricultura, os exportadores de soja deram um recado claro ao governo: zero de tolerância é impossível. Aparentemente, o argumento convenceu as autoridades. “A vida é uma evolução. Desde que tenhamos provas suficientes de que é impossível a tolerância zero, podemos mudar”, afirmou o ministro interino da Agricultura, José Amauri Dimarzio, que se reuniu com a cadeia produtiva da soja.

Na reunião, ficou definido que os técnicos do governo e da iniciativa privada formarão um grupo de trabalho que estudará os termos da instrução normativa que trará também normas para os níveis aceitáveis de insetos vivos, impurezas e umidade. Uma resposta será apresentada ao governo na próxima segunda-feira (31). A mistura de soja com sementes provocou um impasse comercial com a China, que recusou lotes de soja brasileira e fez com que os chineses cancelassem a compra de grãos fornecidos por seis empresas brasileiras.

Amanhã, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, maior produtor de soja do País, visita o porto de Tianjing para averiguar a qualidade do produto brasileiro durante o desembarque. Ele quer ver pessoalmente se a reclamação dos chineses tem fundamento. Maggi será acompanhado da corretora Chao En Hung, que integra comitiva empresarial formada pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e pelo governo de Mato Grosso para acompanhar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na visita oficial à China.

Impossível

“Tolerância zero é impossível. Num navio é impossível não ter dois ou três grãos de sementes”, alertou o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes. Ele defendeu que compradores e vendedores acertem os índices aceitáveis de mistura de sementes. O contrato fornecido pela Anec aos associados para as negociações com soja, lembrou, prevê tolerância de 0,2%, mesmo nível aceito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O contrato, acrescentou, tem sido usado nos últimos 40 anos. “Jamais tivemos problema dessa ordem. O problema da China é novo para nós. A China usa o governo brasileiro para conseguir as suas sugestões”, afirmou.

Ainda assim, os exportadores aceitam reduzir os porcentuais aceitáveis de mistura com sementes “para níveis muitos baixos”.

Segundo Mendes, nos Estados Unidos a tolerância é de três grãos de sementes de soja por quilo. Ou seja, num navio com 60 mil toneladas, a tolerância é de 180 milhões de grãos de sementes. “Defendemos um porcentual abaixo do estabelecido pela legislação americana. Podemos reduzir para um grão de semente por quilo”, afirmou.

Para justificar seu argumento de que a tolerância zero, como quer o governo, é impossível, ele citou que para completar um navio com capacidade de 70 mil toneladas, são necessárias duas mil carretas de 35 toneladas cada. “É impossível evitar que um grão de semente se misture à carga”, disse. Mendes acrescentou que o impasse comercial com a China por conta da soja derrubou os preços da soja brasileira no mercado internacional. Os valores cairam de US$ 340 por tonelada para US$ 243 por tonelada.

A iniciativa privada pediu ao governo uma definição rápida sobre o impasse da mistura. “Eu acredito que nós vamos conseguir entregar mais 9 milhões de toneladas, mas se não conseguirmos os prejuízos serão de US$ 3 bilhões”, calculou o presidente da Anec. Os exportadores solicitaram registro para exportações de 17 milhões de toneladas até o momento, sendo que 9 milhões de toneladas ainda não foram embarcadas.

Porto rejeita caminhão com soja

A Empresa Paranaense de Classificação de Produtos (Claspar) rejeitou, na fiscalização que faz no Porto de Paranaguá, um caminhão procedente de Maringá carregado com 26,5 toneladas de uma mistura de resíduos oriundos da pré-limpeza de soja.

Numa análise visual preliminar os técnicos puderam constatar a presença de diferentes tipos de fragmentos e praticamente nenhum grão de soja intacto. Conduzido à 1.ª Subdivisão Policial, o motorista Ananias de Souza da Silva foi preso em flagrante acusado de tentativa de estelionato.

Na documentação apresentada pelo motorista, constava que a carga era destinada para exportação. O caminhão foi recolhido pelos policiais para perícia. “A carga é impura e está fora dos padrões para exportações”, disse o delegado José Tadeu Bello.

Do Chile, onde integra uma missão comercial, o superintendente do porto Eduardo Requião disse que a rejeição foi necessária. “A nossa tolerância é zero para este tipo de ação ilícita. O Porto de Paranaguá só aceita produtos de qualidade e de procedência garantida”, salientou.

A previsão é de que o laudo da perícia seja encaminhado em dez dias à delegacia para ser anexada ao processo criminal. Além de Silva, também serão ouvidos os proprietários das empresas Palestra Comercial Exportação e Importação de Madeiras, que carregou o caminhão; da Renascer Transportes de Cargas, dona do veículo e Figuemar, que receberia a carga em Paranaguá.