Foto: Cesar Brustolin/SMCS

Grace Garcia: maior preocupação nos últimos meses, foi com a conta do celular, que chegou a R$ 700.

A manicure Leoni Alves Vieira, 31 anos, casada, dois filhos, tem um salário mensal de R$ 1.400 e admite que tem dificuldades para controlar as despesas da casa. ?Todo fim de mês é a mesma história, me perco nas contas e sempre tenho mais para pagar do que para receber?, diz. Leoni é uma das funcionárias do Salão Styllo, no Batel, que participaram do Curso de Educação para o Consumo, lançado há três meses pela Prefeitura de Curitiba. Foram 20 cursos até agora, com mais de 300 participantes.

O programa despertou a atenção de empresários, que estão oferecendo o curso aos seus funcionários. Um exemplo é a indústria Novozymes, na CIC, que ofereceu o curso aos 400 funcionários e familiares. Em três horas de aula, os participantes aprendem como planejar os gastos domésticos, de acordo com a renda familiar, sem comprometer a qualidade de vida.

?O orçamento doméstico é uma radiografia da situação financeira da família?, diz a técnica Marise Euclides Faigenblum, da Secretaria Municipal do Abastecimento, coordenadora do curso. O Curso de Educação para o Consumo orienta as pessoas a gerenciarem o orçamento doméstico, com base numa planilha mensal. ?Desacelerar o processo de consumo leva tempo. É uma questão de educação?, explica Marise.

O proprietário do Salão Styllo, Nilton Lima, foi um dos primeiros empresários a se interessar pelo curso. ?A maioria da minha equipe é formada por profissionais autônomos, que recebem semanalmente, e não conseguem economizar para comprar um bem de consumo à vista. Pior: pegam vales para pagar prestações atrasadas ou compram bens desnecessários?, diz. Nilton afirma que o curso de orçamento doméstico é uma forma de investir na equipe e proporcionar melhor qualidade de vida aos funcionários.

Na Rua da Cidadania da Matriz, as aulas são dadas por uma equipe que freqüentou o curso de educação alimentar, promovido pela Secretaria do Abastecimento nos bairros de Curitiba. O curso de educação alimentar ensina a melhor utilizar os alimentos, reaproveitando talos e folhas, e a reduzir gastos no orçamento doméstico.

Puxão de orelha

A servidora municipal Cleusa Mottin saiu satisfeita do curso. ?Foi um verdadeiro puxão de orelha. Aprendi a planejar e sonhar com o futuro?, disse. ?Antes do curso gastava bem mais, comprando por impulso, sem moderação. Agora já sei quanto custa comprar sem pensar?, acrescentou a dona de casa Lilian Cardoso de Lima.

A técnica Marise Faigenblum explicou que a maioria das dívidas é resultado do descontrole, compras mal feitas ou falta de planejamento. ?É o que chamamos de agorismo – um mecanismo da publicidade que provoca no indivíduo a necessidade de comprar agora?, afirmou. ?Toda compra deve ser precedida de uma reflexão. Afinal, o salário não estica e o mês não encolhe.?

No início do curso, Marise pede para que os participantes anotem numa folha de papel suas despesas fixas, compras efetuadas no mês, as que estão vencendo ou as atrasadas. ?Fiquei até um pouco nervosa com a situação quando a conta ficou grande demais. A coisa piorou mais, quando percebi que tinha esquecido muita coisa?, disse a manicure Leoni.

A cabeleireira Grace Garcia, 24 anos, tem salário de R$ 2.400,00, e participou do curso de orçamento doméstico no Salão Styllo. ?Não conseguia definir prioridades na lista de compras. Além da avalanche de propaganda, trabalho num ambiente rodeado pela vaidade e consumo.? A maior preocupação nos últimos meses, foi com a conta do celular, que em setembro foi de R$ 700. Grace admite que compra por impulso e que seu salário nunca será suficiente. ?Quando ganhava menos, gastava menos, mas gastava tudo.? Agora com um salário maior, tem mais problemas. ?Tenho mania de comprar blusinhas do tipo regata, de várias cores, inclusive cores que não combinam com nada que tenho.? (SMCS)

Consumismo está ligado a carências

Para o psicólogo e professor de Psicologia da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná, Percy Klein, o desejo de consumir está ligado, na maioria dos casos, à satisfação de suprir carências. ?E já está comprovado que o ato de comprar provoca prazer, até por exigência do meio social no qual vivemos. Ter tal objeto de desejo é também uma forma de pertencer ao grupo?, avaliou.

Klein diz que é difícil escapar do consumismo, em função das facilidades do cartão de crédito ou do crediário facilitado em muitas parcelas. ?Hoje é possível comprar um carro zero quilômetro pagando prestações a perder de vista, que cabem perfeitamente no orçamento. Porém, isso pode comprometer outras necessidades básicas ao longo do prazo de pagamento?, alerta.

Na opinião do psicólogo, o Curso de Educação para o Consumo é uma forma de melhorar a qualidade de vida das pessoas. ?A maioria dos problemas de estresse e de distúrbios emocionais pode ter origem numa vida financeira desorganizada?, diz.

Serviço:

Interessados pelo Curso de Educação para o Consumo devem procurar os núcleos da Secretaria Municipal do Abastecimento nas Ruas da Cidadania ou ligar para o telefone (41) 3350-3831.