Foto: O Estado do Paraná
Operadores trocam informações na Bovespa.

A tensão prevaleceu pelo terceiro dia consecutivo também no mercado de câmbio, com a falta de certezas sobre os rumos das economias americana e mundial. Em dia de pouca liquidez, a moeda americana teve valorização de 2,54% e encerrou cotada a R$ 3,14, pouco abaixo da máxima de R$ 3,152 alcançada pela manhã. É o registro mais alto desde o fechamento de 14 de abril do ano passado.

Analistas lembram que a volatilidade ontem e nas últimas semanas não foram exclusividade do mercado brasileiro, menos ainda do mercado que negocia moeda estrangeira. “Os investidores estão estressados no mundo todo”, diz o analista de câmbio da corretora Liquidez, Mário Paiva, lembrando das expressivas quedas das bolsas internacionais.

O Ibovespa caiu 5,46%, para 17.604 pontos, os índices das bolsas européias caíram todos mais de 2%, reproduzindo as perdas entre 2,8% e 4,9% na Ásia. “As pessoas estão saindo da bolsa para entrar no dólar, que é o que acontece quando há turbulência”, diz Paiva.

Segundo ele, mesmo em alta de 8,20% no ano, a moeda americana não deixou de ser procurada por quem quer se proteger. “Se não fosse o exportador, que está no mercado todo dia, o dólar estaria subindo ainda mais.”

A tendência, ele e muitos acreditam, ainda é de alta. Mas, mesmo assim, ele considera difícil estabelecer um novo patamar. Nos próximos dias mesmo, avalia, deve haver uma “correção”, mas sem alteração da tendência.

Até amanhã, outro fator de pressão de alta que se mantém no mercado de câmbio é o vencimento da dívida cambial na quinta (dia 13). O BC não vai rolar o crédito. São US$ 372 milhões em NBC-E e US$ 335 milhões em contratos de “swaps cambiais”. Na quarta-feira da semana que vem, dia 19, vencem mais US$ 2 bilhões que não devem ser rolados.

Para o diretor de mercados emergentes da corretora López León, Felipe Brandão, diante da provável elevação de juros nos EUA, os agentes ainda estão à procura de novos patamares até para os títulos da dívida externa.

Com isso, o risco-País chegou a 810 pontos pela manhã, mas marcava 798 no fechamento do mercado, ainda em alta de 5,13%. Os C-Bonds foram negociados a 85,875 do valor de face, nível mais baixo desde 5 de agosto de 2003. O Global 40 é negociado a 82,6%.

Entre os indicadores americanos, na quinta e na sexta, saem os indicadores da inflação do atacado e do consumidor, respectivamente, que podem aumentar o medo de uma inflação de demanda, que poderia ser contida por juros elevados nos EUA. Alguns bancos estrangeiros estimam taxa de 2% até dezembro.

Terror

Ontem pela manhã, a rede de TV árabe Al Jazira transmitiu um vídeo que afirma ser de um grupo iraquiano desconhecido prometendo seqüestrar e matar árabes e trabalhadores estrangeiros – especialmente kuwaitianos – na cidade de Basra, no sul do Iraque.

Anteontem, uma explosão em Grozny, capital chechena, matou o presidente da Chechênia, Akhmad Kadyrov, o ministro da Fazenda checheno, Eli Isayev, e o chefe do Conselho de Estado, Khusein Isayev. Autoridades locais responsabilizaram rebeldes separatistas chechenos.

Turbulência já custou RS 10 bi

As turbulências enfrentadas pelo mercado financeiro na semana passada custaram R$ 10 bilhões ao governo. Esse é o impacto da recente alta do dólar sobre a dívida pública, de acordo com estimativa feita a partir de dados fornecidos pelo Banco Central. O efeito da desvalorização do real nas contas públicas reflete a dolarização de parte do endividamento do setor público – aproximadamente um terço da dívida de R$ 925 bilhões é corrigido pela moeda dos Estados Unidos.

Qualquer oscilação da cotação do dólar tem impacto sobre as finanças do governo. Na semana passada, a alta foi de 3,6% – passou de pouco menos de R$ 2,96 para R$ 3,05, considerando a taxa de câmbio média aferida pelo Banco Central e usada de parâmetro para o cálculo da dívida.

Em cinco dias úteis, a alta do dólar corroeu praticamente todo o esforço fiscal feito por União, estados, municípios e estatais em janeiro e fevereiro – quando o superávit primário (economia do governo para pagamento de dívida) totalizou R$ 10,245 bilhões.

O prejuízo da semana passada não é permanente e pode ser revertido, caso a cotação do dólar volte a recuar para menos de R$ 3, mesmo patamar observado no final de abril. Ainda assim, o movimento mostra a fragilidade do equilíbrio fiscal do governo.