Tempo instável prejudica safra de maçã

A primavera chuvosa, o inverno com poucos dias frios e a estiagem do final do ano passado fizeram com que os produtores de maçã do Sul do Estado sofressem uma quebra de cerca de 40% da safra colhida este mês. Por conta disso, a fruta ficou mais cara no mercado, dando brechas para que a maçã importada aproveitasse o câmbio favorável e surpreendesse o consumidor com preços equivalentes ou até mais baixos que o da maçã nacional. Isso quando a fruta colhida aqui não chega a faltar nas gôndolas. Os produtores paranaenses, que respondem por 8% da produção nacional, sentem o prejuízo na hora de vender para o varejo e tentam compensar em parte no preço, que, somente no repasse do prejuízo, chega ao consumidor pelo menos 30% mais caro.

O pólo produtor de maçã no Paraná está concentrado principalmente entre as cidades de Porto Amazonas, Campo do Tenente e Lapa. Palmas também tem produção considerável, mas não se diferencia como essas três cidades, que concentram uma peculiaridade: são as únicas onde a fruta é colhida na entressafra, ou seja, em janeiro, um mês antes das colheitas dos maiores produtores do País, os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. ?Com esse diferencial concorremos com a fruta importada que vem do Hemisfério Norte, colhida entre os meses de setembro e outubro?, explica o produtor de Campo do Tenente Augusto Ávila, que comanda a NH Agrícola.

Mas o ano passado concentrou situações climáticas e econômicas surpreendentes aos produtores, que colhem os resultados agora. O dólar mais baixo é o primeiro fator, que reflete na concorrência com o produto importado, tornando-o mais competitivo. Situação que é agravada pelo término precoce dos estoques da maçã colhida no RS e SC há quase um ano – como a produção daqueles estados é muito grande, eles possuem mecanismos de conservar a fruta em câmara fria até perto da safra seguinte. ?Eles tiveram safra ruim também no ano passado e no meio de dezembro os estoques acabaram?, lembra Ávila, recordando a pior quinzena para o consumidor, que pagou mais caro pela maçã gala desde então, predominante nas terras nacionais.

E, se em janeiro a esperança era por melhoras com a colheita da produção paranaense, nem isso o agricultor pôde garantir. ?Este ano vai ser de preço alto porque a safra está menor?, alerta o produtor, apenas confirmando o que o consumidor já sente no bolso ao ir ao mercado. Augusto Ávila, que colhe pelo menos 30 mil toneladas todos os meses de janeiro, este ano colheu somente 18 mil, segundo ele porque 2005 concentrou situações climáticas totalmente desfavoráveis para o cultivo da maçã, primeiramente pela falta de frio no inverno. A maçã produzida no Paraná precisa de, pelo menos, 200 horas com temperaturas abaixo dos sete graus Celsius. ?No inverno a planta adormece e é quando acumula reservas. Com pouco frio, elas acumularam pouca energia.? Resultado: além da diminuição da quantidade de frutas, o desenvolvimento também ficou prejudicado, resultando na predominância de frutas de pequeno a médio porte à venda.

Logo depois, o início de primavera chuvoso agravou a queda da produção. Em quarenta dias, choveu 800 milímetros na região, quantia que seria suficiente para seis meses, prejudicando a florada das macieiras – é quando as flores desabrocham que entram em cena as abelhas, em parte responsáveis pelo desenvolvimento das frutas. ?E para piorar, a seca de dezembro não ajudou nos 15 dias anteriores à colheita, quando é fundamental que haja chuva?, completa Ávila, adiantando que neste ano o produtor vai ter poucos recursos para investimento, uma vez que a compensação no preço alivia as perdas, mas não é suficiente para suprir todos os prejuízos. ?Os resultados devem vir no futuro, já que a colheita é a cada três anos?, conclui.

Quebra se reflete no preço (alto) e no desemprego

Com as perdas na safra, os colhedores de maçã também sofrem as conseqüências. Os 750 empregos temporários gerados usualmente em janeiro por Augusto Ávila caíram para 400 nesta colheita. E o preço da venda ao varejista aumentou em 30% – dependendo do tamanho na maçã, o quilo sai entre R$1,10 e R$1,65, valor que é integralmente repassado ao consumidor, somado à porcentagem de lucro do atravessador. ?Hoje estou embarcando dez caminhões por dia, mas tenho pedidos para o dobro da quantidade que, infelizmente, não posso atender. Em 15 anos como produtor, nunca peguei uma situação tão adversa?, avalia o produtor Augusto Ávila, da NH Agrícola.

Ainda assim, há quem acredite que logo os preços devem baixar no mercado. Paulo Ficinski, que comanda a Frutalapa, localizada no município de Lapa, também amargou prejuízos nesta safra de maçã -as duas mil toneladas que costuma colher diminuíram este ano para 450, aumentando o preço do produto. Ainda assim, acredita, em meados de fevereiro a situação deve se normalizar. É quando Rio Grande do Sul e Santa Catarina, que produzem em quantidades que abastecem todo o mercado interno e que vão para exportação, começarão a colher. ?Eles também tiveram problemas e prevêem perdas na safra, mas compensam pela quantidade de produção, que chega a ser 20 vezes a nossa?, analisa. Na opinião do produtor, o aumento de preço em janeiro é rotina que foi apenas intensificada pela quebra da safra paranaense. ?A diferença é que o produtor vai ficar no zero a zero. A gente compensa no preço, mas não é suficiente?, lamenta.

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