Capacidade de compra está cada vez menor.

Rio  – Luz, gás, telefone, água e transporte são algumas das tarifas que todo mês levam embora aproximadamente 30% da renda do trabalhador. O gasto é comprovado por indicadores de preços, como mostra o cálculo feito pelo economista Luiz Roberto Cunha, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), ambos do IBGE.

Nas famílias com renda de um a 40 salários-mínimos, o comprometimento da renda com as tarifas chega a 26,5%. Já o peso desses serviços na renda dos consumidores que ganham de um a oito mínimos atinge 27,73%. Transporte e energia são as tarifas que mais pressionam os brasileiros, principalmente aqueles que recebem até oito mínimos por mês: 11,53% e 6,20%, respectivamente. Entre os que ganham de um a 40 salários, o item transporte compromete 7,54% da renda e a conta de luz, outros 4,56%.

– O grupo de gastos com tarifas inclui também as contas de gás e de telefone, além de água e esgoto, entre os que mais pesam no orçamento. O conjunto dos chamados preços administrados nos últimos 12 meses subiu 20,19% até setembro, contra a inflação de 15,14% medida pelo IBGE – informa o economista.

O telefone celular aparece nas pesquisas com o menor percentual de gasto no orçamento do consumidor: 0,24% da renda para quem ganha de um a 40 salários-mínimos e 0,09% para os que recebem de um a oito salários. Os números apresentados estão distorcidos, porque os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, estão defasados e não computaram o boom da telefonia celular ocorrido nos últimos anos.

Diante de tantas contas para pagar, a capacidade de compra do consumidor fica cada vez menor, diz Cunha. Lazer, vestuário e outros gastos ficam em segundo plano. O consumidor tem de escolher entre pagar a conta ou adquirir um bem.

É o que acontece com Maria Cristina de Almeida Canavezzi. Recepcionista de um salão de beleza no Recreio, Zona Oeste do Rio, conta que gasta até mais de 30% do salário de R$ 500 com tarifas, principalmente energia elétrica e telefone. É com o que ganha que sustenta a família, já que o marido está desempregado.

Gastar com lazer, roupas ou algo fora do habitual no supermercado está fora de cogitação. Para equilibrar o orçamento ou adquirir algum bem, o jeito é vender as férias.

Não sobra dinheiro para nada, muito menos para guardar. Trabalho apenas para pagar as contas. Por isso, estou pensando em arranjar algum outro meio de complementar a renda até que meu marido consiga um emprego.

O consultor do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) Marcos Pó lembra que o consumidor não tem muita saída, já que existem limites para a redução de gastos com tarifas. O jeito é ficar atento às contas e sempre reclamar do que considerar abuso ou excesso.

Nos gastos com energia, o consumidor aprendeu com o racionamento. Mas no caso de outras tarifas, o ideal é prestar atenção na conta. No caso do telefone é preciso ficar atento ao número de ligações para celulares, que pesam muito, e verificar se há alguma ligação registrada que não foi feita. E reclamar seus direitos sempre que se sentir prejudicado – diz Pó.