O tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos afetará exportações brasileiras equivalentes a US$ 11 bilhões, segundo estimativa da Amcham Brasil. Os setores de máquinas, calçados e móveis devem sofrer maior pressão com a nova cobrança. As informações são da Gazeta do Povo.

continua após a publicidade

Há visões distintas sobre os impactos na economia. Alexandre Chaia, professor do Insper, acredita que os efeitos devem ser limitados, já que produtos de maior peso nos negócios — café, petróleo, carne bovina, aviões comerciais e celulose — ficaram de fora da nova cobrança. Para ele, a decisão tem mais viés político do que prático.

Por outro lado, Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), acredita que os efeitos devem afetar a economia de forma mais significativa. Segundo ele, 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre. O cenário tende a piorar com o aumento das tarifas.

O comércio bilateral já registra queda de 13% no ano e levou a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro ao menor patamar desde 1997. A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais, especialmente de produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto e pasta química de madeira.

continua após a publicidade

Os maiores efeitos sobre a economia devem vir de possíveis custos fiscais com subsídios estatais e outras medidas para mitigar os danos econômicos sofridos pelas indústrias mais atingidas. O governo federal já anunciou que criará auxílios aos setores mais afetados pelas tarifas.

Um dos principais setores afetados é o de máquinas e equipamentos, dos quais os Estados Unidos são o maior comprador. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), em 2025 as vendas brasileiras foram de US$ 3,2 bilhões. A entidade ressalta que parcela significativa desse comércio ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico.

continua após a publicidade

A elevação de tarifas tende a aumentar custos, reduzir competitividade, comprometer investimentos e afetar a eficiência das cadeias produtivas instaladas nos dois países, segundo a Abimaq.

Para reduzir os efeitos do tarifaço, os setores afetados tendem a buscar a diversificação de mercados. A indústria moveleira, por exemplo, já vem redesenhando o mapa de suas exportações. Os Estados Unidos seguem como principal destino do setor no país, mas viram sua participação cair de 28,3% em 2024 para 16,5% no acumulado de 2026.

No mesmo período, a América Latina avançou de 53,1% para 64,5% das exportações nacionais de móveis. A mudança também reflete outro fator: as calçadistas brasileiras aceleraram sua presença em países latino-americanos, favorecidas pela proximidade geográfica e logística mais eficiente.

Para as indústrias que ficaram de fora da lista de exceções e sofrerão os efeitos diretos das tarifas adicionais, o auxílio estatal será fundamental. O pacote de medidas que o governo federal já se comprometeu a colocar em prática, conhecido como plano Brasil Soberano, é visto por alguns setores como essencial para apoiar e mitigar a crise.

Chaia explica que o suporte, por meio de linhas de crédito do BNDES, ajudará essas empresas a atravessarem a turbulência enquanto buscam diversificar seus compradores. O especialista indica que o Brasil foi pego de surpresa no passado, mas hoje está mais bem preparado.

Humberto Aillon, professor do núcleo contábil e tributário da Fipecafi, identifica três momentos de impacto: restrição às importações, freio à atividade e menor confiança sobre a economia em um cenário de juros elevados. A conta recai principalmente sobre a indústria de transformação, que responde por 84% da pauta exportadora para os EUA.

Apesar disso, o peso financeiro da nova taxação pode recair com mais força sobre os próprios norte-americanos. Isso porque os Estados Unidos não conseguirão substituir facilmente as importações brasileiras e deverão manter o fluxo de compras mesmo com tarifas maiores, diz o professor do Insper.

Embora não haja temor de uma crise imediata na economia nacional, a reversão das novas barreiras comerciais no curto prazo é complexa. Raquel Borges de Sá, estrategista da XP Investimentos, aponta que as chances de reversão dessas medidas são pequenas. Isso porque a imposição das novas tarifas foi elaborada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA sob uma base institucional e jurídica muito forte.

Apesar da pressão para uma reação incisiva, a adoção de medidas de retaliação pelo governo brasileiro — como o acionamento da Lei de Reciprocidade econômica, já confirmado pelo governo — divide especialistas. O presidente Lula admitiu a possibilidade como resposta.

Para Chaia, essa estratégia seria como colocar mais calor nesse fogo, prejudicando o próprio consumidor local e não trazendo benefícios ao país. A resposta ideal está na continuidade da política de expansão de parceiros comerciais, buscando novos mercados importadores.

A expectativa é de que as negociações entre os dois governos permaneçam abertas, já que uma sobretaxa adicional de 12,5% pode ser aplicada sobre as exportações brasileiras em decorrência de uma outra investigação dos EUA sobre trabalho forçado. Segundo Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, esse esforço torna-se ainda mais urgente diante da probabilidade de novas tarifas que poderão elevar as sobretaxas sobre produtos brasileiros para até 37,5%.