Alerta a sinais de potencial desaceleração do fluxo de investimento estrangeiro direto para o Brasil nos próximos anos, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) encaminhou aos candidatos à presidência propostas de políticas para favorecer a atração desses recursos. A lista passa por medidas para elevar a participação do capital estrangeiro em projetos de infraestrutura e a inserção do País em cadeias globais.

Segundo a Sobeet, os números recentes de IDE têm sido inflados por dois fatores extraordinários: o aumento acima da média dos empréstimos intercompanhias – impulsionados pelas reduções de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) – e da retenção de investimentos por filiais de empresas estrangeiras. Trata-se de operações de natureza financeira que revelam uma estratégia de curto prazo e não necessariamente significam mais investimentos produtivos. Sem eles, a Sobeet calcula que a entrada de investimento direto seria 26% menor nos últimos 12 meses até agosto. Em termos absolutos o volume cairia de US$ 67 bilhões para US$ 42,9 bilhões.

O volume de IDE continua alto em 2014, mas há um menor número de novos projetos a serem executados por companhias estrangeiras no País. Em 2011, os anúncios somavam US$ 163,6 bilhões, caindo a US$ 65,3 bilhões em 2012 e US$ 62,6 bilhões em 2013. De janeiro a junho de 2014 o montante é de apenas US$ 26,2 bilhões, segundo dados da Rede Nacional de Informações sobre o Investimento (Renai), do Ministério do Desenvolvimento (MDIC). Os dados reforçam que há uma postura mais cautelosa das empresas transnacionais.

A entidade afirma que o Brasil não está se beneficiando do aumento recente dos fluxos globais de investimento direto estrangeiro (IDE) como a média de outras economias. Apesar de ter recebido cerca de US$ 65 bilhões por ano desde 2011, o País no ano passado caiu no ranking global de atração de investimento pela primeira vez desde 2006, para a quinta posição.

“A percepção é que há uma maior utilização de recursos já internalizados por empresas estrangeiras em detrimento da vinda de outros para projetos. As transnacionais estão com menor apetite de investimentos por aqui”, diz o presidente da Sobeet, Luis Afonso Lima.

O cenário menos favorável para a atração de IDE pelo Brasil resulta de uma combinação de fatores. Primeiro, a expectativa é de retração dos fluxos para países emergentes diante das mudanças iminentes na política monetária americana e consequente elevação das taxas de juros daquele país. Dessa forma os recursos serão mais disputados entre economias em desenvolvimento.

O quadro se soma à perda de dinamismo da demanda doméstica, que impulsionou em grande parte os investimentos estrangeiros nos últimos anos. A renda interna em alta era um contraponto às perdas de rendimento na Europa em crise. “Havia uma oportunidade de compensar aqui o desempenho ruim das matrizes. Agora há sinais de limitações do consumo como motor da economia, como as pressões inflacionárias, o aumento da inadimplência e o déficit em transações correntes”, explica Lima.

O economista lembra que o Brasil atingiu o terceiro maior déficit em transações correntes do mundo, de US$ 78,4 bilhões nos últimos 12 meses até agosto. Assim, o contínuo ingresso de IDE é importantes para financiar o desequilíbrio das contas externas, pressionadas pelo saldo comercial e a conta de viagens internacionais.

As propostas que estão sendo encaminhadas pela Sobeet ao PT e ao PSDB pedem uma postura ativa do próximo governo na atração do investimento estrangeiro contemplando, por exemplo, as novas “modalidades de internacionalização sem capital” – atividades como aluguéis imobiliários e gestão de ativos intangíveis – e a busca por investimentos de outros países em desenvolvimento.

Lima destaca entre os pontos mais urgentes a necessidade de atrair investimentos capazes de sustentar o crescimento da economia, como os da área de infraestrutura. O setor responde por apenas 8% do estoque de IDE do País, apesar do programa de concessões lançado pelo governo federal. “O potencial do investidor estrangeiro não foi 100% explorado. É preciso ter projetos consistentes, fortalecer marcos regulatórios e agências reguladoras”, diz.

A ideia é que o governo tente direcionar esses investimentos para as regiões Norte e Nordeste. Hoje 82,6% dos anúncios de IDE estão concentrados no Sudeste, Sul e Centro-Oeste.

A Sobeet sugere ainda que o novo governo aproveite a presença das filiais de empresas transnacionais no país para potencializar a integração em redes internacionais de produção. Isso requer integrar políticas de comércio exterior e investimento, bem como apoiar o desenvolvimento de empresas locais com potencial de complementar as redes internacionais de produção.

A entidade frisa ainda a importância do País avançar em acordos regionais de comércio e investimento “sob o risco de prejudicar o país do ponto de vista da atração de fluxos de IDE no futuro”. O documento cita as negociações inconclusivas entre Mercosul e União Europeia, um imbróglio que se arrasta desde 2000.