A medida provisória que autoriza o uso de recursos no FGTS como garantia para empréstimos consignados (com desconto em folha) pode ajudar a suavizar a vida financeira de endividados, mas o setor imobiliário teme esgotamento do fundo já que sua principal finalidade é a habitação, segundo especialistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado. A expectativa do Ministério da Fazenda é que a iniciativa viabilize R$ 17 bilhões em créditos embora até os favoráveis à decisão acreditem que somente cerca de R$ 1 bilhão desse montante vire de fato novas operações neste ano em meio à fraca demanda por crédito.

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Voltada para trabalhadores do setor privado, a MP 719 prevê que 10% do saldo dos recursos no FGTS ou até 100% do valor da multa rescisória por demissão sem justa causa sejam convertidos para crédito foi publicada na quarta-feira, 30, mas ainda depende da definição das regras por parte do conselho curador do fundo (CCFGTS) que se reunirá nesta quinta-feira, 31). Neste momento, os bancos estão avaliando a medida e devem enviar sugestões para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) que, posteriormente, deve endereçar a demanda ao CCFGTS. Procurada, a entidade diz que não está comentando o assunto.

O assunto, conforme uma fonte, está quente e muitos são contrários à medida. “Não vai funcionar”, avalia o executivo de um banco. Para um especialista, que também prefere falar na condição do anonimato, o uso dos recurso do FGTS como garantia de crédito consignado pode acelerar o esgotamento do fundo que, conforme estimativas, somava cerca de R$ 340 bilhões em contribuições de trabalhadores ao final do ano passado. “Se a atual situação do País perdurar, isso pode acontecer. Diante do aumento do desemprego, crescem também os saques. O foco é a habitação. É preservar o bem conquistado”, diz ele.

Representantes do mercado imobiliário alertam ainda que o uso do FGTS como garantia para contratação de crédito consignado pode desvirtuar a destinação dos recursos do Fundo. Na opinião do diretor da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz Fernando Moura, a medida provisória aumenta a preocupação de um desgaste do FGTS, diante de níveis elevados de desemprego.

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“Em um momento de desemprego alto, a garantia do FGTS pode virar fonte de pagamentos”, afirma o executivo da Abrainc. Como consequência de possíveis saques do FGTS, há o risco de redução dos recursos direcionados para construção civil e infraestrutura. “Já não há grandes fontes de recursos para desenvolvimento de construção e infraestrutura. Agora, o direcionamento para consumo pode limitar esse funding”, avalia.

Em contrapartida, alguns executivos do setor bancário defendem a medida como uma alternativa para endividados colocarem as contas em dia em um prazo maior e a juros menores. Eduardo Jurcevic, diretor de crédito consignado do Santander Brasil, avalia que, do ponto de vista do setor privado, a medida provisória pode contribuir para a adequação de produtos às necessidades das pessoas. “Será possível oferecer condições mais positivas para que os trabalhadores se adequem ao cenário atual que estão vivendo”, pondera ele.

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Outro especialista admite que a medida poderia ser negativa diante do aumento do desemprego, mas lembra que o crédito consignado tem taxas mais baixas que outras linhas como cheque especial e cartão de crédito. Uma fonte acrescenta, porém que, neste caso, a saída seria estimular o home equity, financiamento pessoal com o imóvel dado como garantia, que além de juros menores, tem prazo maior que o do consignado. “Consignado é dívida de médio prazo e não longo prazo. Com home equity, a queda da prestação poderia, de fato, ser representativa frente ao salário do trabalhador”, atenta ele.

Já Luiz Antonio França, da consultoria França Participações, sugere a utilização dos recursos do FGTS para o pagamento das prestações do financiamento imobiliário. Uma espécie, segundo ele, de seguro desemprego. “O uso para essa finalidade seria mais condizente com a agenda do FGTS, que é a habitação”, opina ele.