Aumento puxa taxa para mesmo patamar
que vigorava em junho de 1999.

Em reunião extraordinária, ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu aumentar a taxa básica de juros, a Selic, de 18% para 21% ao ano. O BC justificou a elevação com os “recentes aumentos de preços e a piora da expectativa de inflação decorrentes da depreciação acentuada do câmbio”. Antes desta segunda-feira, os juros foram aumentados pela última vez em 18 de julho do ano passado, quando a taxa subiu de 18,25% para 19% ao ano. A taxa de 21% é a mais alta desde junho de 1999 – quando o valor era o mesmo.

A reunião extraordinária foi a primeira na gestão Armínio Fraga e a terceira nos últimos cinco anos. A primeira foi em 1997, durante a crise asiática, e a segunda em 1998, na crise russa.

Nos dois casos, o Copom elevou significativamente a taxa de juros. No dia 30 de outubro de 1997, quando o BC era presidido por Gustavo Franco, o Copom se reuniu extraordinariamente e aumentou a taxa de juros de 20,7% para 43,4% ao ano. Na época, a atual taxa Selic chamava-se Taxa do Banco Central.

A segunda reunião ocorreu no dia 10 de setembro de 1998, quando os juros subiram de 29,75% para 49,75% ao ano (Tban, na época). O presidente interino do BC era Francisco Lopes.

Unanimidade

A decisão foi tomada por unanimidade e levou em conta os recentes aumentos de preços e a piora da expectativa de inflação decorrentes principalmente da depreciação do real ante o dólar, segundo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom). No acumulado do ano até setembro, a inflação medida pelo IPCA atingiu 5,60%, estourando o teto da meta deste ano, de 5,5%. A reunião emergencial foi convocada pela manhã, quando o dólar estava em alta de mais de 2%, apesar das medidas restritivas que já haviam sido impostas pelo BC na semana passada, como a redução dos limites de exposição cambial das instituições financeiras e o aumento do compulsórios sobre depósitos à vista, a prazo e poupança.

Desde a semana passada, o Banco Central anunciou várias medidas para tentar conter a desvalorização do real frente ao dólar, como o aumento dos compulsórios dos bancos e redução da exposição cambial das instituições financeiras.

O comitê decidiu agir rápido para conter as turbulências do mercado e não esperou o encontro ordinário marcado para a semana que vem, nos dias 22 e 23 de outubro.

Dólar fecha em alta e bolsa em queda

A rolagem de mais da metade de uma dívida cambial que vence na quinta-feira, a decisão do Banco Central de elevar os juros para conter a inflação e o dólar e a intervenção do BC no mercado não foram capazes de evitar que a moeda norte-americana voltasse a fechar em alta ontem. O avanço, entretanto, foi menor do que o registrado na máxima do dia, quando a moeda foi vendida a R$ 3,93 na expectativa pelo anúncio do BC. Ontem o dólar fechou cotado a R$ 3,86 para venda e R$ 3,84 para compra, em alta de 1,05%.

“O Banco Central está fazendo todas as coisas que a economia clássica recomenda. Mas nós só vamos ver o efeito prático das medias [tomadas pelo BC na sexta-feira e ontem] a partir de quinta-feira”, disse Mario Battistel, diretor de câmbio da Corretora Novação.

Bolsa

A Bolsa de Valores de São Paulo fechou com baixa superior a 4 por cento nesta segunda-feira, afetada principalmente pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica de juros de 18 para 21 por cento ao ano. O Ibovespa encerrou aos 8.450 pontos ?voltando novamente ao patamar de fevereiro de 1999? após uma queda de 4,56 por cento. O volume financeiro foi tímido: 362,4 milhões de reais.

Das 56 ações que compõem o Ibovespa, apenas três não fecharam em baixa nesta segunda-feira. O destaque ficou para as ações preferenciais da Telemar, as mais líquidas da bolsa paulista, cotadas a 20,39 reais o lote de mil, com desvalorização de 5,60 por cento.

Medidas

Na sexta-feira, o BC anunciou uma série de medidas com foco no enxugamento dos reais disponíveis no mercado para conter a compra de dólares. Mas o pacote serviu mais para evitar uma escalada maior da cotação do que para derrubá-la, e a queda não se manteve sequer por dois dias.

Além do aumento dos juros, o BC completou ontem a rolagem de 53,5% de uma dívida cambial que vence na quinta-feira e que vem pressionando o mercado, que compra dólares para substituir os papéis vencidos e manter seu “hedge” (proteção cambial).

Aumento dos juros frustra o mercado

A decisão do Copom de aumentar a taxa Selic de 18% para 21% ao ano trouxe confusão e frustração para o mercado financeiro. A expectativa era de que o aumento fosse significativamente maior que os três pontos percentuais. Os analistas não entenderam bem o motivo da decisão.

Uma frase do economista-chefe da BBA Corretora, Alexandre Schwartsman, resume bem esse sentimento negativo: “Se o problema é de inflação, a decisão não é urgente. Se for para conter o câmbio, é pouco”, avaliou. O economista-chefe de um grande banco doméstico, que prefere não se identificar, reforça: “A reunião não deveria ter sido convocada para isso, não vai funcionar. Dá a impressão que o BC não está mais agindo racionalmente”.

O mesmo economista critica o fato de o BC não ter esperado o resultado das medidas anunciadas na sexta-feira (aumento de compulsórios e restrições adicionais para aplicações em câmbio), dado que os bancos têm até o próximo dia 16 para se ajustarem.

É majoritária no mercado a visão de que o aumento da Selic não terá os efeitos positivos que a autoridade monetária gostaria de ver – prova disso, o dólar retomou seu movimento de alta. Alguns analistas até chegaram a sugerir que poderia haver algum impacto inicial positivo, mas o comportamento dos preços dos ativos logo após a decisão não confirmaram essa tendência.

“A medida não vai fazer muita diferença, pelo contrário, só está aumentando a percepção de que as medidas do BC são cada vez mais ignoradas pelo mercado, numa realidade muito próxima do que ocorreu na Argentina”, comenta outro economista-chefe que também prefere não se identificar. A única avaliação positiva limita-se ao fato de o BC ter demonstrado alguma independência política em suas decisões. Mas os analistas dizem que, na relação custo/benefício, ainda é pouco.

Inflação

O economista-chefe do BicBanco, Luiz Rabi, também disse que o BC errou ao elevar a taxa de juros em apenas três pontos percentuais. “Se era para fazer isso, não precisava convocar uma reunião extraordinária, sendo que a ordinária seria na semana que vem”, explicou o economista.