A desaceleração da atividade econômica pesará sobre a arrecadação também em 2016 e o governo não deve cumprir o objetivo de uma alta nominal de 11,5% quando comparados os orçamento de 2015 e o aprovado para 2016. Mesmo considerando uma inflação estimada em 6% para este ano, o acréscimo esperado representaria um ganho real de mais de 5%, o que está bem distante das projeções dos economistas, que apontam queda real de até 3%.

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A diferença entre as projeções do mercado e do governo reside no otimismo da União em contar com receitas extraordinárias baseadas na criação de impostos, como a volta da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Também conta com a repatriação de recursos do exterior e vendas de terrenos na Amazônia e da folha de pagamentos. O novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, pouco antes da sua posse, que espera a aprovação da CPMF até maio – e o Orçamento de 2016 prevê uma arrecadação de R$ 10 bilhões com a volta do imposto do cheque.

Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria, reconhece que a única forma efetiva de a União elevar as receitas seria com aumento da carga tributária, mas avalia que isso parece pouco provável. Até porque, conforme observa Daniel Weeks, economista-chefe da Garde Asset Management, com o atual ambiente político em Brasília dificilmente estas medidas seriam aprovadas no Congresso.

Os especialistas explicam que, no caso da CPMF, mesmo se a tramitação da volta do imposto do cheque fluir bem, os reflexos efetivos sobre a receita se dariam apenas a partir de setembro, tendo pouco impacto nos cofres públicos. Quanto às receitas com a repatriação de recursos, Lavieri classifica a projeção do governo de “heroica”. “Existe pouca informação de quanto dinheiro ilegal há lá fora e que parcela estaria disposta a retornar quando se levam em conta o nível do câmbio e a ‘caça às bruxas’ movida hoje pelo Poder Judiciário”, afirmou.

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Weeks acrescenta que este tipo de receita, extraordinária, não deveria ser encarado pelo governo da forma como tem sido. “Isso tudo seria um bônus. Caso se confirme, o governo faria um resultado fiscal maior. Mas contar com isso para a meta não é ideal. É por isso que o mercado desconfia da entrega do superávit primário”, comentou.

O Orçamento de 2016 aprovado pelo Congresso prevê o recolhimento de R$ 1,425 trilhão em impostos, um aumento de R$ 147 bilhões em relação ao estimado pelo Orçamento de 2015, de R$ 1,278 trilhão. Com base nesses números, o governo espera superávit primário de 0,5% do PIB.

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Diferentemente do que estima o governo, o que se tem hoje no mercado são expectativas que apontam para queda significativa da receita com tributos. A 4E Consultoria estima uma queda real de 1% na arrecadação federal este ano. A RC Consultores prevê diminuição entre 1,5% e 2%. Já a Garde espera retração real de 2% nas receitas. A Rosenberg Associados projeta que a queda real será de 3%.

Os economistas têm como base para projeções um quadro recessivo que afeta em cheio o recolhimento de tributos. Eles citam, por exemplo, a retração dos recolhimentos que incidem sobre o consumo, em razão do encolhimento da renda disponível para ser tributada devido ao aumento do desemprego e à corrosão dos salários em meio à inflação elevada.

Dois números dão a dimensão do desafio a ser encarado pelo governo para cumprir a estimativa de aumentar a arrecadação em 2016. Um deles é o consumo das famílias, que recuou 4,5% no terceiro trimestre de 2015 em relação a igual período de 2014 na medição do Produto Interno Bruto (PIB) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O outro é a retração na massa de renda real habitual dos ocupados no País, que caiu 12,2% em novembro ante igual mês de 2014. Os especialistas destacam que, como este quadro não será revertido ao longo de 2016, a tendência é de que a demanda interna siga em queda, afetando a coleta de impostos.

Rafael Bistafa, economista da Rosenberg Associados, destaca que, além destes fatores, a arrecadação reflete o nível de atividade com certa defasagem. “Como a economia ainda não chegou ao fundo do poço, a arrecadação deve continuar caindo”, estima. As projeções de economistas de mercado apontam para uma recessão de 2,95% neste ano, após uma queda estimada em 3,71% em 2015, de acordo com o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (4) pelo Banco Central.

Cálculos preliminares do economista Thiago Biscuola, da RC Consultores, feitos a pedido do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, apontam que, se a arrecadação mantiver o ritmo de mais de 5% de queda apresentado até novembro do ano passado, a coleta de impostos deve voltar a níveis de 2010. “Quando se atualizam os valores da série para preços de hoje, seguramente o resultado de 2015 deve voltar ao que foi cinco anos atrás”, afirmou.