Análise do economista Marcel Kaparoz, da RC Consultores, despeja um balde de água fria sobre a avaliação de operadores do mercado financeiro que viram no aumento de 1% das vendas do comércio varejista em outubro na comparação com setembro um elemento a mais para o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central não cumprir a sinalização de que um adicional ajuste da taxa Selic seria feita com parcimônia.

O dado divulgado na manhã desta sexta-feira, 12, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que vendas em outubro cresceram o dobro do que esperava o consenso do mercado apurado pelo AE Projeções, de 0,50%, e levou alguns operadores a inferirem que a Selic poderia voltar a subir 0,50 ponto porcentual na primeira reunião do colegiado monetário em 2015.

Para Kaparoz, tal avaliação parece negligenciar as sinalizações que o BC vem dando por meio de seus comunicados e pronunciamentos de seus dirigentes. Trata-se uma visão, segundo ele, que leva mais em conta a reação da autoridade monetária única e exclusivamente à inflação quando, na verdade, o próprio BC tem afirmado que os movimentos de política monetária visam, também, a paridade de juros no mundo.

Mesmo porque, de acordo com economista, o aumento das vendas em outubro é um fator pontual. Basta olhar para as variações das vendas do varejo no acumulado de 12 meses encerrados nos meses de outubro desde 2011 para ver que, na prática, o que está ocorrendo é uma forte desaceleração no ritmo de crescimento das vendas.

No período encerrado em 2011 as vendas cresceram 8%. Em 2012 cresceram 6%, em 2013 expandiram 4% e neste ano está ao redor de 2,5%.

Para Kaparoz, o crescimento das vendas em outubro, por melhor que tenha sido, não suplanta a tendência do cenário econômico para o próximo ano enquanto catalisador do aumento de juros.

A situação é mais abrangente e isso a ata do Copom deixou claro, na avaliação do economista da RC Consultores. “A questão do juro não é só inflação. Tem também o comportamento do câmbio. A aversão ao risco está voltando a afetar o mundo e com isso a tendência é de que o juro comece a subir no mundo todo”, disse o economista.

De acordo com Kaparoz, ainda que na Europa e no Japão as coisas não estejam andando bem, nos Estados Unidos a situação começa a melhorar. E com o fim do relaxamento quantitativo e possibilidade de o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) começar a elevar a taxa de juros em 2015, o resto do mundo começará a subir juro para manter a paridade de juro mundial. “Há que se ter uma paridade de juros global porque todo mundo paga juros em dólar”, disse.

No Brasil, a rentabilidade local é de 11,75% pela Selic, enquanto nos Estados Unidos a taxa de juro é de 0,25%. “Quando o investidor traz seu dinheiro para o Brasil, ele faz o câmbio a R$ 2,65 na compra, mas pode, ao retirar os recursos do País, na hora da venda, ter que se submeter a um dólar de R$ 2,30”.

Neste sentido, de acordo com Kaparoz, para continuar a atrair investimentos ou o Brasil reduz o risco País, que é uma medida de longo prazo, ou eleva a taxa de juros, que é a medida de curto prazo.

E com a economia fraca, o ingresso de Investimento Estrangeiro Direto (IED) tende a não aumentar, o que faz com que a autoridade monetária force o ingresso de recursos pela canal da renda fixa. E para isso, o ideal é aumentar juro. “Por isso é que o BC tem afirmado que a política monetária não é feita apenas em função da inflação. Não são as vendas do varejo que farão o BC abandonar a parcimônia”, disse.