A baixa produtividade dos canaviais do Centro-Sul na safra 2011/12, a pior dos últimos 23 anos, abriu uma brecha para que o governo federal, por meio do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra), desaproprie terras com a cultura. Dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) apontam que até outubro a produtividade média na região chegou a 69,5 toneladas por hectare. Na área de Araçatuba, oeste paulista, os canaviais renderam 65,9 t/ha e, no Paraná, produziram apenas 65,2 t/ha.

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Esses índices estão abaixo da produtividade de 70 t/ha estipulada pelo governo desde a década de 1980 como um dos critérios para a desapropriação de terras com cana em São Paulo e do Paraná para fins de reforma agrária. Os dois Estados possuem quase 5,5 milhões de hectares com cana para a colheita anual, ou quase 70% dos 8 milhões de hectares da cultura no Centro-Sul.

“De forma geral, a produtividade é uma das funções sociais da terra; e a terra que não cumpre função social é passível de desapropriação. No entanto, toda propriedade pode justificar e tem todo o direito de defesa”, admitiu o Incra, por meio de sua assessoria de imprensa, ao ser questionado pela Agência Estado sobre o assunto.

O índice de produtividade é um dos maiores tabus dentro do governo federal, por causa da falta de consenso em relação à revisão dos indicadores proposta pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2009. Se os números sugeridos à época fossem aprovados, a situação seria mais grave, pois a produtividade mínima dos canaviais passaria para 75 t/ha. Mas, diante da pressão, o assunto seguiu engavetado pelo governo nos últimos dois anos.

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O presidente da Associação dos Produtores de Bioenergia (Udop), Celso Torquato Junqueira Franco, empresário do setor sucroalcooleiro, admite a possibilidade de terras canavieiras serem desapropriadas com os índices vigentes. “Legalmente, a perda de produtividade dá ao governo a possibilidade de desapropriar área improdutiva e o resultado deste ano aumenta o risco”, disse. “Mas é preciso avaliar se há vontade política do governo”, completou o empresário, que é ainda prefeito da cidade de Sud Mennucci (SP).

Junqueira Franco sugeriu, inclusive, que entidades do setor, como a própria Udop e a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) “se preparem e elaborem documentos como respaldo, para evitar algum problema”. Caso isso aconteça, quem deve municiar o setor é o CTC, entidade de pesquisa e desenvolvimento mantida por usinas e destilarias que apontou índices de produtividade abaixo dos mínimos para desapropriação.

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Segundo Luiz Antônio Dias, gerente de produtos do CTC, há uma série de explicações para justificar essa produtividade baixa, de 69,5 t/ha, na safra 2011/12, que representa quedas de 15,3%, ante as 82,1 t/ha colhidas na safra passada, e de 18,1% em relação ao índice considerado “mínimo ideal” para a região, que é de 85 t/ha.

As estiagens nas últimas duas safras, as fortes geadas este ano e o florescimento dos canaviais, induzido pelo clima irregular entre fevereiro e março, são fenômenos climáticos que contribuíram para a quebra da produtividade. Também existe a questão econômica, como o envelhecimento e a falta de renovação das lavouras, além da redução nos tratos agrícolas nos canaviais após a crise de 2008, que atingiu com força o setor sucroalcooleiro.

“Mais da metade da perda de produtividade, ou de 14 a 15 (pontos porcentuais) desses 18% ocorre por esses dois fatores”, disse. “Outros motivos secundários, como aumento de pragas e impactos da mecanização na colheita, também contribuíram para essa queda”, completou Dias.

O gerente do CTC prevê que no fechamento da safra o índice de produtividade fique ainda menor, em torno de 69 t/ha, e também vê brecha para desapropriações por conta desses números. “Isso pode acontecer”. Mas, segundo ele, o cenário deve mudar a partir da próxima safra. “O clima melhorou bastante, com períodos de chuva alternando com curtos de estiagem muito bons para o plantio e o desenvolvimento das lavouras”, concluiu.