Economia

Proposta de teto para juros divide governo e pressiona mercado financeiro

Imagem mostra o Palácio do Planalto, em Brasília.
Imagem mostra o Palácio do Planalto, em Brasília. Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil

A discussão sobre um possível limite para a taxa Selic provocou divisão entre aliados do governo e gerou forte reação negativa no mercado financeiro. A polêmica começou após a repercussão de um artigo do economista André Lara Resende, que sugere reduzir a Selic de 13,75% para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses e criar metas conjuntas para as políticas fiscal e monetária. As informações são da Gazeta do Povo.

A proposta recebeu apoio de figuras ligadas ao PT. A ex-ministra Gleisi Hoffmann chamou o texto de “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”. José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, defendeu a criação de um mecanismo mais amplo que o Conselho Monetário Nacional para coordenar as políticas econômicas.

Investidores e economistas reagiram com críticas contundentes. O temor é que a medida comprometa a autonomia do Banco Central e pressione a inflação, além de elevar os juros de longo prazo e provocar crise cambial. John Cochrane, professor da Universidade Stanford citado por Lara Resende, alertou que o sucesso da proposta dependeria da confiança em superávits fiscais duradouros e instituições sólidas.

Fazenda tenta conter danos e mercado segue em queda

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que exista encontro agendado entre Lula e Lara Resende. Ele afirmou que a proposta de “tabelamento de juros” não está em discussão e pediu que investidores não se precipitem. “Nas agendas comigo, nós não estamos tratando de nada que justifique o mercado ter uma posição de medo”, declarou na terça-feira (3).

Apesar das tentativas de acalmar os ânimos, o Ibovespa registrou a sexta queda consecutiva, de 1,42%. O dólar subiu 0,79%, fechando a R$ 5,48. Os juros futuros também subiram, com a taxa do DI para janeiro de 2029 passando de 14,962% para 15,070%, e a do contrato para janeiro de 2031 subindo de 15,272% para 15,370%.

A turbulência se intensificou desde 26 de outubro, quando parlamentares e dirigentes petistas descartaram ajuste fiscal nas redes sociais. O Ibovespa acumulou queda de 18,12% na semana, a pior desde março de 2020. As empresas da B3 perderam R$ 963 bilhões em valor de mercado, segundo a Elos Ayta.

Silêncio presidencial amplia incertezas econômicas

Analistas apontam que a falta de definições sobre a política fiscal aumenta a insegurança. Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, afirma que o governo não consegue transmitir uma ideia clara para 2027. “O mercado está aguardando isso”, diz. Um interlocutor do governo revelou que Lula e parte da base petista interpretam as reações como “terrorismo” e que “o governo não pode ceder à pressão da Faria Lima”.

As projeções econômicas já refletem o cenário de incerteza. O Boletim Focus elevou as estimativas para o dólar de R$ 5,05 para R$ 5,34, para a Selic de 13,25% para 13,50%, e para o IPCA de 5,19% para 5,22%. Na quarta-feira (4), o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cortes.

Isadora Araújo, economista da GEP Brasil, destaca a ausência de anúncio sobre o comando da Fazenda e de programa de transição fiscal. Leandro Gabiati, da Dominium Consultoria, avalia que Lula pode estar testando reações com “balões de ensaio”. “A vitória inédita para um quarto mandato dá a Lula margem política para não tomar decisões precipitadas”, afirma. A expectativa é que o presidente se pronuncie no domingo (8) sobre as metas fiscais.

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