Economia

Proposta de redução forçada da Selic reacende temor de crise turca no Brasil

Imagem mostra uma calculadora com moedas e notas de real.
Decisões econômicas, inflação e mercado: entenda como os rumos da economia afetam o seu dia a dia. Foto: Imagem criada com IA. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

A defesa de uma redução política da taxa básica de juros ganhou força no debate público após artigo do economista André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real e ex-presidente do BNDES. A proposta divide o PT e provoca reação negativa do mercado financeiro, que enxerga risco de repetição da crise vivida pela Turquia em 2021, quando o governo forçou a queda dos juros e desencadeou disparada inflacionária e desvalorização cambial. As informações são da Gazeta do Povo.

Lara Resende argumenta que o aumento da dívida pública brasileira decorre exclusivamente da taxa Selic fixada pelo Banco Central, e não do déficit primário. Segundo ele, o déficit do governo geral em 2025 ficou em 0,48% do PIB, abaixo de países como Estados Unidos, China e Japão. O economista propõe a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional para definir a Selic entre a meta de inflação de 3% ao ano e o crescimento potencial estimado em 5,5%, reduzindo gradualmente a taxa para cerca de 7,5% em 12 meses.

Experiência turca serve de alerta sobre intervenção política

Em março de 2021, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan demitiu o chefe do Banco Central após elevação dos juros de 17% para 19% ao ano. Entre setembro e dezembro daquele ano, sob pressão governamental, a autoridade monetária cortou a taxa de 19% para 14%. O resultado foi imediato: em três meses, o dólar saltou de 8,80 liras para 18,40 liras, alta de 109%. A inflação anual passou de 19% para 36,1% em dezembro de 2021, atingindo 85,5% em outubro de 2022.

Para conter a desvalorização da moeda sem elevar juros, o governo turco queimou dezenas de bilhões de dólares em reservas internacionais. Após vencer as eleições de 2023, Erdogan recuou completamente e nomeou equipe ortodoxa que elevou os juros para 50% ao ano em 2024. Segundo a Lev Intelligence, a Turquia mantém hoje a quarta maior taxa real de juros do mundo, atrás de Brasil, Rússia e Colômbia.

Especialistas apontam gasto público como origem do desajuste

Pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas contestam a tese de que os juros são a causa isolada do problema fiscal brasileiro. Samuel Pessoa, do FGV IBRE, afirma que a Selic elevada reflete o esgotamento de um modelo baseado em estímulo ao consumo e gastos públicos acima do crescimento potencial. Entre 1995 e 2025, o salário mínimo subiu 195% em termos reais, enquanto a produtividade por trabalhador avançou apenas 22%.

Estudo do pesquisador Bráulio Borges, também diretor da LCA Consultores, indica que cada ponto percentual do PIB em impulso fiscal adiciona 1,9 ponto percentual ao diferencial de juros do Brasil frente aos emergentes. A reindexação do salário mínimo e dos pisos constitucionais da saúde e educação gerou despesa adicional de R$ 520 bilhões no terceiro mandato do presidente Lula, responsável por 40% do aumento da dívida pública no período.

Denis Medina, professor da Faculdade do Comércio de São Paulo, reconhece que a Selic elevada impulsiona trajetória explosiva da dívida, mas pondera que culpar o Banco Central equivale a matar o mensageiro. Na visão do docente, a autoridade monetária atua como remédio para a inflação gerada pelo excesso de gastos públicos. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou tabelamento da Selic e uso de reservas para compensar fuga de capitais, negando reunião marcada entre Lula e Lara Resende.

A deputada federal Gleisi Hoffmann defendeu o artigo como essencial para enfrentar a ofensiva sobre a política fiscal brasileira, embora tenha recuado ao afirmar que discutir o tema não significa adotá-lo. Pesquisa do Banco Central divulgada nesta terça-feira aponta que a mediana das expectativas para o endividamento público no fim de 2026 está em 83,5% do PIB, podendo alcançar 95,5% ao final do próximo mandato presidencial.

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