Os negócios promovidos pela 8ª Feira de Móveis do Paraná (Movelpar), que vai até sexta (18) em Arapongas, tiveram uma manhã de reflexão neste segundo dia de evento e primeiro do Ciclo de Palestras sobre Gestão do Design. As tendências do design brasileiro foram discutidas amplamente com foco em despertar o desejo dos consumidores brasileiros pela compra de móveis. Nesse ponto, a distância entre o que é ofertado nas lojas e o que de fato promove conforto e bem-estar aos compradores permeou toda a programação.

“Os fabricantes têm, muitas vezes, focado em produzir para os lojistas e, não, para quem compra. É lógico que as pessoas vão acabar adquirindo algo que está disponível, mas isso não é necessariamente algo que eles desejam”, explicou o designer Bernardo Senna. Para ele, é esse distanciamento que faz os móveis serem preteridos por um eletrodoméstico. “De uma maneira geral, tanto em lojas especializadas quanto em grandes redes varejistas, os produtos estão muito pasteurizados e as compras, na maioria das vezes, ocorrem pela necessidade do utilitário e, não, pelo apreço ao produto como se dá com eletrônicos”, criticou.

Tal avaliação reflete parte das informações reunidas no livro “Desejos e Rupturas – Referenciais do Mobiliário” – que se constitui em um caderno de tendências elaborado, anualmente, pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Também lançado nesta manhã (15), na Movelpar, a obra pesquisou 68 residências, de diferentes padrões de vida, em 10 estados das cinco regiões do Brasil, e traçou contrastes e semelhanças no modo das pessoas de Norte a Sul viverem e se relacionarem com o mobiliário.

“Algo que me chamou muita atenção ao visitar as casas foi notar como há reaproveitamento de móveis nos lares brasileiros. O mesmo móvel já ocupou diversos lugares e espaços na mesma casa. Isso tem a ver com valores afetivos, mas também com o fato do móvel estar em segundo plano no momento de comprar. Vi, por exemplo, um home theater caríssimo apoiado em um móvel feio, bem desgastado pelo tempo”, aponta o designer especialista em tecnologia de móveis do Senai-RJ, Demétrius Vasques Cruz. “A mesma pessoas que gasta R$ 5 mil em um aparelho eletrônico, não gasta R$ 2 mil em um móvel e, isso, sinaliza, principalmente, que não estamos produzindo o que as pessoas querem de fato”, alerta.

É unanimidade entre os profissionais que estão na Movelpar que essa mudança no modo de consumir de se relacionar com os móveis passa pela ruptura de certos padrões importados. “O bom viver do brasileiro é nossa principal riqueza lá fora e acabamos esquecendo isso ao projetar móveis com traços, cores e linhas engessados em conceitos de catálogos estrangeiros. As pessoas querem mais do que consumir um objeto, querem algo que emocione, provoque sensações, buscam algo mais”, orienta Senna.