Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que produtores do Centro-Oeste e Norte do Brasil confiam mais nos Estados Unidos do que na China, mesmo que o país asiático seja o principal destino da soja e da carne bovina dessas regiões. O levantamento foi feito entre outubro e novembro de 2025 com mil pessoas em 70 municípios. As informações são da Gazeta do Povo.
Enquanto 21,8% dos entrevistados consideram os EUA muito confiáveis, apenas 12,6% dizem o mesmo da China. A confiança no país asiático caiu quase 20 pontos percentuais desde 2017, mesmo com o crescimento da parceria comercial. No primeiro semestre deste ano, 63,5% de toda a soja das regiões vendida para fora teve como destino a China, segundo o Ministério do Desenvolvimento.
Matias Spektor, diretor da FGV Relações Internacionais e autor da pesquisa, explica que a fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. Segundo ele, confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes.
As regiões Centro-Oeste e Norte respondem por mais da metade de toda a produção de grãos e concentram mais da metade das exportações do agro brasileiro, de acordo com o Ministério da Agricultura. A pesquisa foi realizada depois do tarifaço americano de 50% sobre produtos brasileiros que vigorou no ano passado.
Produtores aceitam regras da União Europeia mas questionam motivos
Em relação à União Europeia, quase três quartos dos entrevistados (74,3%) concordam que cumprir os requisitos ambientais fortaleceria a reputação internacional do Brasil. Ao mesmo tempo, 66,9% acreditam que a conformidade reduziria a competitividade dos produtos brasileiros, e 61,5% entendem que as regulações servem principalmente aos interesses econômicos europeus.
Para os autores do estudo, a fronteira aceita as regras da UE como o preço de acesso a um mercado valioso, mas não as endossa como expressão de valores compartilhados. As três avaliações coexistem sem se cancelarem.
Perfil político da região é majoritariamente de direita
O relatório mostra que 83,5% dos moradores da fronteira agrícola se identificam como de direita (44,1%) ou centro (39,4%), enquanto apenas 16,5% se dizem de esquerda. A maioria acredita que o governo interfere demais na vida das pessoas (55,9%) e que a regulação governamental dos negócios faz mais mal do que bem (64,3%).
À medida que o peso eleitoral da fronteira cresce, as preferências da região impõem restrições reais às posições que Brasília pode adotar perante Washington, Pequim e Bruxelas. Os estados da região respondem por aproximadamente 15% do eleitorado nacional.
