Brasília – A disparada dos preços do petróleo no mercado internacional e a alta das cotações do dólar se transformaram, desde a semana passada, na mais nova ameaça às metas de inflação para 2004. Os analistas do mercado financeiro ainda estão avaliando o impacto dessas variações sobre os preços, mas consideram inevitável que tanto o câmbio como um provável aumento dos combustíveis elevem as taxas de inflação nos próximos meses.

No fim de março, quando projetou um IPCA de 5,2% para 2004, o Banco Central estimava que a cotação do barril de petróleo ficaria entre US$ 22 e US$ 28 no segundo trimestre deste ano. Na sexta-feira, a cotação já atingiu US$ 41,38, fazendo crescer as expectativas em torno de um aumento dos combustíveis no país, principalmente porque a Petrobras, no primeiro trimestre, não repassou para os preços internos o aumento do petróleo no mercado internacional. Com isto, a estatal viu seu lucro ser reduzido em 28,3%.

O economista José Guilherme Reis, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e atual diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), lembra que o câmbio, o petróleo e a demanda interna são os três principais fatores que o Banco Central avalia nas projeções de inflação que dão suporte às decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa de juros. E, nesse sentido, embora considere ainda cedo para uma avaliação mais precisa, alerta para a pressão que o aumento dos combustíveis, combinada com aumentos de custos decorrentes da variação do câmbio, pode provocar nos índices de inflação.

“É de se esperar uma pressão maior sobre os preços, especialmente num momento em que a economia já não está tão desaquecida”, afirma José Guilherme.

A previsão do economista é que o impacto do câmbio e do petróleo nos preços internos pode resultar em uma inflação acima do centro da meta (5,5%), mas ainda assim a taxa se manteria dentro da margem de 2,5 pontos percentuais (para cima e para baixo) prevista no sistema.

“É para lidar com situações como essa que o sistema de bandas foi criado”, conclui.

Os levantamentos de preços ainda indicam estabilidade da inflação, o que mostra algum espaço para que no curto prazo o BC ainda promova uma pequena redução nas taxas de juros na reunião do Copom que acontece nesta semana. Mas as expectativas se modificaram e estão piorando desde a semana passada, com a disparada da cotação do petróleo no mercado externo e a variação do dólar, que se mantém firme na cotação acima de R$ 3.

“A trajetória da taxa de câmbio é um fator importante no comportamento da inflação”, afirma Ilan Goldfajn, ex-diretor de Política Econômica do BC, que prefere, por enquanto, não arriscar previsões sobre o impacto dessa variação sobre os preços.

Alexandre Póvoa, economista-chefe do banco Modal, prevê que, se o mercado financeiro mantiver a instabilidade, pode começar em breve um movimento de empresas endividadas em dólar em busca de proteção (hedge) cambial, pressionando ainda mais o preço da moeda americana.

“Quanto mais o câmbio estiver pressionado, maior o risco de repasse para os preços ao consumidor. No caso de o câmbio continuar em alta, as empresas vão buscar proteção e começa a bola de neve, com o dólar subindo ainda mais”, considera Póvoa.

No Brasil, o governo é o grande fornecedor de proteção cambial (hedge) com títulos corrigidos pela variação do dólar e contratos de swap no mercado futuro. Até agora, a procura por hedge está baixa e o BC retirou US$ 19 bilhões de dívida cambial do mercado em 2004. Mas se essa tendência se modificar, o impacto sobre a dívida pública será significativo. Uma variação de apenas R$ 0,10 no preço do dólar provoca um aumento de R$ 2,4 bilhões na dívida pública.

O economista Élson Telles, diretor da Fides Asset Management, lembra que a cotação do dólar subiu 8% somente no último mês, e existe uma defasagem entre a variação do câmbio e o repasse desses custos para os preços internos.

“A variável importante é essa volatilidade na cotação do dólar. Mas há defasagem no efeito do câmbio sobre os preços ao consumidor, ao contrário dos índices de atacado que já vinham mais altos”, afirma Telles, que espera um IPCA de 0,5% em maio e junho.

Ainda sem considerar os efeitos da elevação do dólar e do petróleo nos preços internos, Telles trabalha com um IPCA entre 6,5% e 7% para o ano, um pouco acima do centro da meta fixada pelo BC para 2004, de 5,5%. As estimativas do analista, no entanto, mostram a inflação ainda dentro da margem de tolerância de 2,5 pontos percentuais para cima ou para baixo aceita no sistema brasileiro de meta.

O economista considera que as turbulências no mercado internacional e os juros mais altos no primeiro trimestre devem comprometer também a meta de crescimento do PIB para o ano de 3,5%. A sua previsão é de 3% em 2004.