Para sempre saber para onde vai o dinheiro da família, a única alternativa é manter rigorosamente controlado o orçamento doméstico. Esse é um esforço que certamente traz benefícios.

Ter uma poupança, para o consultor Ricardo Humberto Rocha, pode ajudar as famílias a superar imprevistos. “Nunca se sabe quando será preciso ter um gasto maior no mês. Se o orçamento está apertado, a despesa não planejada trará dívidas ou exigirá o uso do cheque especial”, afirma. Feitas as dívidas, será preciso pagá-las, apertando o orçamento e pagando juros.

Além disso, na hora de investir em um bem, quem tem poupança pode comprar à vista, e fugir dos altos juros dos financiamentos.

Rocha dá uma dica para observar se o orçamento doméstico é saudável. “Somadas todas as despesas, deve sobrar pelo menos 10% da renda. Nessa situação o orçamento está controlado.?

O ideal, segundo Rocha, é começar a vida financeira independente com as finanças organizadas. Ou seja, sair da casa dos pais, seja para casar ou para morar sozinho, é o momento para montar o primeiro orçamento doméstico. “O jovem não sabe exatamente quantas despesas tem uma casa e, ao sair da casa de seus pais, pode perder o controle”, alerta o consultor.

Por isso, ele recomenda que o primeiro passo, ao decidir assumir todas as despesas longe dos pais, é avaliar o orçamento: quanto vão custar o aluguel, as contas de água, luz, telefone, gás, internet, alimentação, transporte, e, principalmente, se todos esses gastos são compatíveis com a renda.

O controle é necessário, mas, para Rocha, não é preciso restringir o orçamento às despesas consideradas essenciais, como moradia, educação e alimentação. Para ele, muitos itens são comumente classificados como supérfluos, sem serem completamente dispensáveis. “Todo tipo de despesa relacionada ao lazer costuma ser classificada como supérflua. Mas ninguém consegue viver sem lazer nenhum, na verdade”, ressalta o consultor.

Para ele, deve-se rever o quanto está sendo gasto com essas despesas consideradas supérfluas, e o quanto pode ser cortado. “Ninguém precisa ser sovina. O importante é ter fundo de caixa.”

Despesas maiores que os ganhos

As famílias com renda mensal de até R$ 3 mil gastam, em média, mais do que ganham e, por isso, se endividam e ficam inadimplentes. As despesas são maiores que a renda para 41,4 milhões de famílias (o que equivale a 150 milhões de pessoas) e representam 85,5% dos domicílios. Os dados constam da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, realizada entre 2002 e 2003.

O estudo mostra também que o brasileiro compromete mais do orçamento com habitação do que com alimentação. Obrigado a gastar mais com consumo, ele vem reservando cada vez menos dinheiro, nos últimos 30 anos, para comprar a casa própria ou fazer poupança.

O levantamento quantifica o que o bolso dos brasileiros já sabe: as contas mensais representam quase toda despesa familiar (95 2%). Sobram apenas 4,8% para tentar aumentar o patrimônio – um quarto do que era em 1974. Assim, famílias com despesas maiores que a renda têm de buscar recursos de terceiros ou deixar de pagar alguma coisa. E com isso acabam se endividando.

As famílias mais pobres gastam 75% a mais do que recebem. São R$ 260,21 mensais de rendimentos médios e R$ 454,70 em despesas. No saldo total, a situação melhora porque a entrada das famílias mais ricas no cálculo modifica esta relação: a despesa média familiar mensal no País é de R$ 1.778,03 e o rendimento, de R$ 1.789,03.

Poupança é a maior prevenção

O ideal, segundo o consultor de Finanças Pessoais, Ricardo Humberto Rocha, é que sobre todos os meses de 10% a 15% da renda da família para aplicar na caderneta de poupança. “Esse valor deve ser guardado como uma reserva, uma poupança para aplicar ou para ser usado em uma emergência ou um imprevisto”, afirma.

Para Ewald, é importante ter um objetivo para levar o controle do orçamento a sério. “É trabalhoso no início, mas é só uma questão de criar o hábito”, diz. Alguns pequenos “truques’ podem fazer a diferença. “Quem anda sempre com dinheiro na carteira tende a gastar mais por impulso”, exemplifica. Rocha acrescenta: “Se for preciso economizar, é melhor não levar as crianças ao supermercado. E a mulher costuma saber melhor que produtos podem sair do carrinho.”

O primeiro passo para montar um orçamento é colocar todos os gastos no papel. “A família deve listar tudo o que costuma gastar para, em primeiro lugar, saber para onde vai o seu dinheiro todos os meses”, explica Rocha.

Sabendo onde é gasta a renda fica mais fácil para a família, então, avaliar se é preciso cortar gastos e de onde esses valores serão retirados. Ewald explica que o primeiro passo é montar um orçamento fictício. “A família chuta quais são os seus gastos. Ao longo de um mês, confere se gasta o que imaginava e, por fim, avalia se as despesas anotadas podem ser cortadas.”

Equilíbrio com corte de gastos

Rever e controlar o orçamento doméstico é fundamental em situações críticas, quando a família perde o controle dos gastos. O desemprego, um imprevisto ou mesmo a má administração da renda podem levar a família a ter de rever suas despesas e fazer alguns sacrifícios para atingir o equilíbrio financeiro – ou seja, compatibilizar a renda e as despesas.

O desemprego do marido fez com que a professora Tercília Bernadete Sanches Costa percebesse a necessidade de rever o orçamento doméstico. As primeiras atitudes já foram tomadas há alguns meses. “Cereais, biscoitos, refrigerantes e iogurtes já não entram no carrinho de supermercado”, conta ela.

O telefone também virou alvo de controle. “Usar a internet, só a cada quinze dias. E os interurbanos também estão suspensos, a não ser em caso de emergência”, explica ela, que mora em Piracicaba, mas tem a família em São Paulo. “Espero que eles me telefonem.”

Agora chegou a hora de fazer mais cortes no orçamento. “Por um tempo o dinheiro do Fundo de Garantia ajudou, mas já não podemos mais contar com isso”, diz ela. Por isso, outras despesas da família tiveram de ser revistas nas últimas semanas.

“Tive de dispensar a empregada doméstica e renegociar o financiamento do apartamento”, conta. Ela aumentou o número das parcelas e diminuiu seus valores em uma negociação com o banco.

Além disso, o filho mais velho está ajudando com as despesas mensais. “Ele também quitou o financiamento do meu carro, que eu estava terminando de pagar.” Somente com esses ajustes, Tercília calcula que conseguiu enxugar o orçamento em R$ 1.500 por mês.

Só funciona se envolver família

O ajuste no orçamento familiar normalmente tem um responsável – o pai ou a mãe. Mas a reorganização só funcionará se contar com a colaboração de todos. “Toda a família tem de participar, ou então, apesar do esforço de alguns, o objetivo não será atingido”, explica o consultor Ricardo Humberto Rocha. “O empenho em economizar tem de ser de toda a família”, ressalta.

Luís Carlos Ewald, da Fundação Getúlio Vargas, completa: é essencial que a família tenha objetivos ao definir a organização do orçamento, e que todos concordem ou reconheçam a importância deles. “Com a clareza dos motivos fica sempre mais fácil colaborar e aceitar as restrições que podem ser impostas à família”, afirma.

Ele acredita que a definição de metas é muito importante. “Se a família define e tem clareza do motivo pelo qual quer economizar fica mais fácil conviver com as restrições e com o trabalho de pesquisar preços e cortar gastos”, diz.

Para a consultora Célia Nathália Moscarade, a família deve se preparar emocionalmente para a organização do orçamento. “O primeiro passo é reunir todos os membros da família e conversar sobre a importância e a necessidade de controlar os gastos”, diz.

Em seguida, é hora de estabelecer as metas: pagar uma dívida, deixar de usar o cheque especial, adquirir bens. “É preciso que todos concordem com as metas, e respeitar o que cada um deseja atingir”, ressalta.