O corte de gastos anunciado ontem pelo governo não deve convencer a todos no mercado financeiro, mas foi, pelo menos, suficiente para ser levado a sério. Para o economista Mauricio Oreng, do Itaú, “esse corte no Orçamento revela um desejo maior de cortar gastos do que estávamos incorporando anteriormente”.

continua após a publicidade

Oreng realizou recentemente um estudo detalhado sobre as perspectivas fiscais em 2011. Basicamente, o trabalho indica que, para que se cumpra a chamada “meta cheia” de superávit primário em 2011, o governo tem que bloquear R$ 88 bilhões do Orçamento. A meta cheia é de R$ 118 bilhões, o correspondente a 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB), já na projeção para 2011 ajustada para R$ 4,056 trilhões, anunciada ontem. O superávit primário representa a economia para pagamento dos juros da dívida pública.

O economista nota que, além do corte de R$ 50 bilhões, o desempenho orçamentário dos últimos anos indica que o governo não “paga” todas as despesas orçadas, criando os chamados “restos a pagar”, que hoje já somam R$ 135 bilhões. Uma hipótese inicial de trabalho no Itaú, que ainda precisa ser consolidada, é de que o governo gaste R$ 25 bilhões a menos do que o orçado, o que elevaria a economia para R$ 75 bilhões – é um pouco mais complicado: algum resto a pagar acumulado pode ser gasto em 2011 e, nesse caso, os novos restos a pagar a serem criados teriam de ser igual a esse valor mais os R$ 25 bilhões.

De qualquer forma, se a economia efetiva atingir R$ 75 bilhões, Oreng estima um superávit primário do setor público consolidado de 2,6% do PIB em 2011. Isso fica abaixo da meta de 2,9%, mas ainda assim, na opinião do economista, “a política fiscal daria uma ajuda bem razoável à política monetária”.

continua após a publicidade

Nas contas de Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander, o anúncio de ontem é bem menos impressionante. Para ele, para se atingir a meta cheia de superávit primário, o corte mínimo teria de ser de R$ 70 bilhões. Mas, no cálculo do próprio Santander – que tem metodologia própria para estimar o superávit primário que efetivamente reduz a demanda e ajuda o BC -, a redução de gastos teria de ser de R$ 88 bilhões. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.