A eleição de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, o Ollie, para presidente do Conselho de Administração da Vale na quarta-feira (22) intensificou a preocupação da oposição no Congresso Nacional sobre a interferência do governo federal na mineradora. Parlamentares articulam a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a pressão regulatória e o uso do Fundo de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), que detém 6,8% das ações da empresa, como instrumento de influência política. As informações são da Gazeta do Povo.
Especialistas alertam que a maior influência política na Vale pode levar a companhia a priorizar projetos alinhados aos interesses do governo, mesmo que ofereçam menor retorno econômico aos acionistas. O cientista político Elias Tavares explica que a tentativa de interferência estatal desestabiliza o ambiente de negócios e atinge a confiança de investidores. A Vale é uma empresa privada, privatizada nos anos 1990, e possui mecanismos de governança corporativa que deveriam protegê-la de ingerências externas.
O avanço do governo ocorreu após pressão para a substituição do antigo presidente do conselho, Daniel Stieler, que renunciou em 6 de julho. O Planalto articulou a eleição de Ollie, visto como aliado político. O receio dos investidores é que a Vale seja submetida a uma política de governança semelhante à adotada na Petrobras durante os governos petistas, quando a estatal foi envolvida em escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato.
O especialista em Mercado Financeiro Felippe Hermes ressalta que a Vale opera em setores sensíveis ao regulador, como mineração, transporte e energia. Segundo ele, as limitações orçamentárias das agências reguladoras brasileiras facilitam a pressão sobre a empresa. Em 2024, quando o governo tentou emplacar o ex-ministro Guido Mantega na presidência executiva da Vale, a mineradora perdeu R$ 14,4 bilhões em valor de mercado em apenas dez dias devido ao temor de interferência política.
Com o controle do Conselho de Administração, o governo pode influenciar decisões estratégicas da companhia, como aprovação do plano de investimentos, alocação de capital para projetos de infraestrutura, repactuação de indenizações ambientais e política de distribuição de dividendos. A preocupação dos acionistas está na possibilidade de retenção de lucros para financiar obras de interesse do governo federal, em detrimento do retorno financeiro aos investidores.
O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) denunciou em 2024 o uso de cobranças regulatórias e de fundos de pensão como instrumentos de pressão. O deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) defende que o Congresso fiscalize qualquer tentativa do Executivo de influenciar o setor privado. A liderança da oposição confirmou que o requerimento de abertura da CPI da Vale e a coleta de assinaturas serão pautados após o recesso parlamentar.
A Gazeta do Povo pediu esclarecimentos aos ministérios de Minas e Energia e de Relações Institucionais, além da liderança do governo na Câmara. Apenas a assessoria do líder do governo, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), respondeu, mas informou que o parlamentar não se manifestaria. Os deputados Marcel van Hattem e Evair de Melo não responderam aos questionamentos até a publicação desta matéria.
