O diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Nelson Hubner, pediu desculpas, hoje, aos agentes do setor elétrico pelo “atropelo” nas mudanças das regras do setor.

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“O setor deve nos desculpar por esse atropelo. Mas essa era uma medida de urgência”, disse.

Ele participou do seminário organizado pela Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e da Indústria de Base) e da CNI (Confederação Nacional da Indústria) que discute, durante todo o dia, as renovações das concessões de geração, transmissão e distribuição que vencem em 2015 em todo o país.

Há uma clara preocupação do governo sobre essa mudança. O setor precisa duplicar a capacidade instalada em 16 anos, e precisará do setor privado para fazê-lo. Hubner admitiu que vários pontos da mudança não possuem consenso dentro do governo, mas alegou razões de urgência da medida.

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No dia 11 de setembro, o governo federal enviou ao Congresso Nacional a medida provisória 579 em que renova as concessões por mais 30 anos e busca reduzir em 20%, em média, a conta de luz dos consumidores brasileiros já a partir de janeiro de 2013.

Hubner disse que esse “atropelo” originou-se da necessidade de uma mudança imediata do preço da energia. O governo avalia que o país estava perdendo competitividade industrial por causa do custo desse insumo.

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A mudança demonstra como o setor industrial ganhou peso dentro do governo após a ida do empresário Jorge Gerdau para a presidência da Câmara de Gestão do governo.

A operação dessas mudanças começou ontem, quando expirou o prazo para a manifestação das empresas que controlam os ativos em concessões que estão terminando. O governo ainda não divulgou um relatório no qual revela quantas empresas aceitaram a renovação e quantas não aceitaram.

Também ontem, a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) anunciou que aceita a renovação de vários ativos sob sua responsabilidade atualmente, mas anunciou que não quer a renovação de três concessões: as hidrelétricas de São Simão, Jaguar e Miranda.

A Cemig e as estatais federais Chesf e Furnas são as empresas que mais serão afetadas pela medida provisória 579. A Cesp (Companhia Energética de São Paulo), controlada pelo governo paulista, encaminhou comunicado à Aneel na semana passada em que indica intenção de renovação.

Antes, porém, o secretário de Energia de São Paulo, José Aníbal, disse que a medida do governo tem conotação política e eleitoral. Segundo ele, o governo federal impôs um prazo exíguo para as companhias decidirem um tema complexo sem saber exatamente quais as condições que serão oferecidas para a renovação: ou seja, a tarifa que será recebida pelo concessionário a partir de agora e o valor da indenização que o governo federal pagará para a reversão dos ativos.

O secretário de Energia de São Paulo Aníbal alega que a Cesp tem ainda para receber R$ 8 bilhões em razão de ativos não depreciados ao longo da concessão.

A MP 579 converte todas as concessionárias em prestadoras de serviço. Assim, a tarifa que receberão bancarão custos de operação e manutenção, além de um incentivo para operar o ativo. O tamanho desse “incentivo” também não está definido. A tarifa não considera mais, para essas concessões, a remuneração de ativos.

O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, -que também participou do seminário organizado pela Abdib- disse que o governo não vai reconhecer “ineficiências” e nem custos gerados por “obras paradas” ao definir o valor da indenização que será paga ao concessionário por ativos não amortizados a serem revertidos para a União.

Deixou claro que não aceitará o valor de R$ 8 bilhões alegado pelo governo de São Paulo para a renovação das concessões das hidrelétricas de Ilha Solteira, Jupiá e Três Irmãos, usinas que ficam no rio Tietê e Paraná.

Regras

O secretário executivo do Ministério de Minas e Energia disse também que EPE (Empresa de Pesquisa Energética), Aneel e PSR, uma consultoria que atende o setor elétrico, estão definindo as tarifas que serão autorizadas para as concessões prorrogadas e o valor da indenização.

EPE e PSR estão calculando os valores de tarifa que serão autorizadas para as hidrelétricas que terão os contratos renovados. A Aneel definirá o valor que será autorizado para as companhias de transmissão.

O governo tem até o início de novembro para informar aos concessionários quais as tarifas que serão autorizadas e o valor de indenização que serão pagos para a reversão dos ativos para a União.

A meta do governo é assinar os novos contratos no dia 4 de dezembro. O objetivo é que as tarifas não tenham mais que remunerar ativos, portanto, o valor da energia que será entregue às distribuidoras será muito inferior ao atual.

Toda essa energia das usinas renovadas passa a ser enviadas para o mercado cativo, ou o mercado das distribuidoras que atendem aos consumidores residenciais, comerciais e industriais. O mercado livre não receberá essa energia. Como essa energia terá um custo menor, o governo avalia que o valor final da conta de luz será, em média, 20% menos já a partir de janeiro.

Mas disso ainda dependerá de duas coisas: quantos concessionários de geração vão aceitar assinar o contrato com novas regras e quais as alterações que a MP poderá ainda sofrer no Congresso. Há mais de 400 emendas ao texto encaminhado ao governo.

Indenização

A indenização dos ativos do setor elétrico que serão retomados pelo governo para posterior prorrogação da concessão por 30 anos é a principal fonte de preocupação do setor.

Segundo Paulo Godoy, presidente da Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base), ainda falta clareza sobre a definição dos valores que serão definidos pelo governo para a reversão dos ativos.

“Ainda não está muito claro como o governo pretende fazer esses cálculos, mas acho que esse seminário pode ajudar a compreender como isso será feito”, disse.
Segundo ele, as mudanças no setor não podem quebrar regras jurídicas, o modelo regulatório e dar sinal econômico equivocado para o setor elétrico.

Segundo ele, o setor investiu R$ 190 bilhões em uma década e terá de “investir 40% mais do que isso” nos próximos anos.

Uma dúvida que pairava sobre o setor era a participação ou não nos leilões das concessionárias que não aceitarem a renovação nas condições definidas pelo governo. Durante o seminário, representantes do governo disseram que o concessionário que não quiser a renovação poderá participar do leilão do projeto que administrava.

Declarações do diretor-geral da Aneel, Nelson Hubner, há duas semanas indicava que isso não seria permitido.

Desta forma, a Cemig, que informou não querer renovar as concessões de três usinas, poderá disputar os mesmos projetos em leilão quando o governo os colocar em concorrência.