Requião e o presidente da Renault, Henrique
Poupel: negociação para evitar uso da
força e chegar a um consenso sobre salários.

Os trabalhadores da Renault do Brasil finalmente fecharam acordo com a direção da montadora. Em assembléia ontem de madrugada, aprovaram o abono de R$ 500 -que será pago no dia 30 de maio aos 2.774 empregados – e a garantia de reposição integral pelo INPC/IBGE na data-base, em primeiro de setembro, para os salários até R$ 2 mil. O acordo, intermediado pelo governo do Estado, pôs fim à greve geral iniciada na terça-feira passada no complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais. Nesse período, deixaram de ser fabricados 1.500 carros e 3.600 motores. Os trabalhadores, que retomaram as atividades às 9h, se comprometeram a fazer horas extras a partir do próximo sábado para compensar o volume de produção perdido na paralisação.

Para os salários que ultrapassarem R$ 2 mil, até R$ 2,5 mil, haverá aplicação de 100% da variação do INPC nos primeiros R$ 2 mil e 70% da inflação sobre a parcela excedente. Já os salários acima de R$ 2,5 mil terão correção de 100% do INPC nos primeiros R$ 2 mil, 70% no valor compreendido entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil, e 50% no valor excedente. Além do abono, ficou acertada a redução da jornada de trabalho de 42 para 41 horas em setembro, passando para 40 horas semanais em março de 2004. A diminuição da jornada era uma reivindicação negociada há três anos pelos metalúrgicos.

Sem violência

Na sexta-feira, a Renault tinha conseguido uma liminar da Justiça que permitia a utilização de força policial para reprimir a manifestação do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba. Ao tomar conhecimento dessa decisão, o governador Roberto Requião determinou a intervenção do assessor especial do governo, Daniel Godoi, na negociação. “Nem que me cassem o mandato outra vez, o Estado não utiliza a Polícia para resolver conflito”, frisou o governador.

De acordo com Godoi, o Estado atuou na negociação em defesa do interesse público. “O objetivo foi assegurar que o sindicato exerça democraticamente seu direito de greve e a empresa possa atuar na capacidade produtiva”, explicou. “O Estado do Paraná tem tomado uma série de medidas incentivando a industrialização. Não é a Polícia que ajudará o entendimento”.

Uma cópia do acordo foi entregue ontem à tarde ao governador pelo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Sérgio Butka, e pelo presidente da Renault do Brasil, Pierre Poupel. “Estamos mostrando que capital e trabalho podem chegar a um acordo, basta boa vontade”, declarou Butka. “Queremos contribuir para que a Renault permaneça aqui, gerando mais empregos no Paraná”. Poupel destacou que o acordo foi difícil, porém salientou que a empresa respeitará as leis do País e do Estado.

Requião quer rever incentivos

O governador Roberto Requião aproveitou a presença do presidente da Renault no Palácio Iguaçu para reafirmar a disposição de rever os protocolos de intenções firmado com as montadoras Renault e Volkswagen/Audi pelo ex-governador Jaime Lerner, que incluem diversos incentivos fiscais. “As pendências que o Estado tem com a Renault, no momento certo serão discutidas, com isenção, sem nenhuma violência ou truculência, assim como está acontecendo com os bingos”, disse o governador. “A fim e a cabo, os interesses da Renault são os mesmos que os nossos, mas vamos ter discussões consistentes daqui para frente”.

Um dos pontos dos contratos que será analisado pela equipe de governo diz respeito à nacionalização de peças. “Vamos discutir amplamente o índice de nacionalização, que é extremamente baixo, e no caso da Renault, dramaticamente baixo”, informou Requião. Dados do Sindimetal usados pelos metalúrgicos indicam que somente 2% das peças dos carros da Renault são fabricadas no Estado. Poupel, no entanto, falou que, em valor, 65% das peças são produzidas no Paraná, mas prometeu que o índice irá aumentar. “Para ser competitivos nas exportações, precisamos atingir 80%”.

Outro ponto defendido pelo governador é a inclusão de salvaguardas nos protocolos, como a garantia de emprego. Poupel acredita que a Renault tem condições de organizar a produção e gerar mais empregos. “Trabalhamos para acertar o projeto do carro mundial”, reiterou. A decisão sobre o local de produção do novo veículo deve sair até junho. A fábrica do Paraná concorre com as unidades da Renault na Turquia e no México. Segundo Requião, uma das soluções para renegociar os contratos seria a utilização de veículos da Renault e da Volkswagen para renovar a frota de veículos do Estado, cuja idade média é de 11 anos e 8 meses.