Foto: João de Noronha

Fábrica da Matte Leão, em Curitiba: sem comentários.

A possível venda da centenária paranaense Matte Leão para a Coca-Cola Company, noticiada ontem no jornal Valor Econômico, apanhou de surpresa consultores e analistas do setor. Conforme a matéria, as empresas devem entregar o registro de oferta de compra ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na próxima segunda-feira.  

Em comunicado enviado à imprensa ontem no final da tarde, a Coca-Cola Brasil informou que a empresa ?está permanentemente em busca de oportunidades no mercado de bebidas não alcoólicas que atendam as necessidades de seus consumidores?. Acrescentou, porém, que ?neste momento não tem qualquer novo investimento já decidido no País?. Já a Leão Júnior – detentora da marca Matte Leão -, com sede em Curitiba, não se pronunciou a respeito até o final do dia.

Fusões e aquisições de empresas são práticas que vêm se tornando cada vez mais comuns no mundo dos negócios. ?Estamos vivendo num processo geral de verticalização, onde os maiores compram os menores. É um movimento forte em vários segmentos, como bebidas, aço, bancos, limpeza e higiene. E o negócio de chás está crescendo muito, é um mercado ?de gente grande?, apontou José Maximo, coordenador nacional de fusões e aquisições da Pactum Consultoria Empresarial.

Segundo Maximo, a possível venda da Matte Leão não chega a ser uma novidade. ?É uma negociação que já vinha ocorrendo há bastante tempo. Vários possíveis compradores sondaram a Leão nos últimos dois anos?, apontou. ?O que faltava ser acertado era o preço, o prêmio?, comentou, referindo-se à marca Matte Leão no conceito mais amplo. ?Por ?marca? entende-se não só a grafia, mas o número de clientes fiéis, a perenidade das vendas, a aceitação do produto, a participação do mercado. Tudo isso compõe a ?marca?, comentou. Justamente por toda a complexidade do conceito, Maximo preferiu não arriscar um palpite quanto ao valor da venda. ?É uma dúvida que nunca vai ser elucidada. A Coca-Cola vai querer sigilo, e todos os envolvidos são ?amarrados? pelo acordo de confidencialidade. Ninguém vai divulgar, nem o Cade?, afirmou.

De qualquer forma, Maximo acredita que o negócio foi fechado por um valor bastante expressivo. ?A Matte ficou bastante tempo negociando. Não é um negócio que saiu barato, mas para a Coca trata-se de uma compra estratégica?, analisou. A Matte Leão é líder no mercado, com participação de 45,7%, segundo dados ACNielsen de dezembro de 2006. Conforme balanço divulgado esta semana, a empresa encerrou 2006 com faturamento de R$ 158,9 milhões, resultado 18,4% maior do que o ano anterior.

Para o consultor da Pactum, a Coca-Cola deve ter um pré-contrato já estabelecido com a empresa paranaense. ?A divulgação do negócio é uma forma de angariar apoio público e interromper outras negociações com a Matte. Todos os outros (possíveis compradores) arrefecem?, comentou. Sobre o negócio ter ainda que passar pelo crivo do Cade – uma vez que a Coca-Cola já tem uma marca de chá pronto em uma parceria com a Nestlé, o Nestea, que detém 24,4% do mercado -, Maximo acredita que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica até pode criar restrições, mas não necessariamente vetar o negócio.

Jóia paranaense

?A Matte é uma das últimas jóias da coroa paranaense em boa situação. Sobraram poucas empresas genuinamente paranaenses com uma marca de destaque?, observou o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças no Paraná (Ibef-PR), Nelson Luiz Paula de Oliveira. Mesmo centenária – a Leão Júnior foi fundada em 1901 -, Oliveira lembrou que a empresa sempre teve como característica a inovação. ?A questão de ser uma empresa familiar foi resolvida, quando se criou a profissionalização da gestão?, disse, referindo-se à contratação de Renato Barcellos Guimarães, frente à empresa desde o final de 2005. ?Isso conta pontos quando se observa a capacidade da empresa de se preparar para o futuro. E por trás disso tudo está a marca forte, que vale muito dinheiro.?

Para Oliveira, a companhia paranaense vale, no mínimo, US$ 100 milhões, sem considerar a marca Matte Leão, que tem valor ?imponderável, intangível?, destacou. Sobre o processo de fusões e aquisições, Oliveira lembrou que boas empresas estão permanentemente na mira de investidores. ?É uma tendência, por causa da escala. As empresas têm que ganhar no volume de venda. Além disso, a globalização é algo irreversível.?

A Leão Junior possui três fábricas: uma em Fernandes Pinheiro, a 30 quilômetros de Irati, responsável por todo o processo de preparação do mate; a unidade de Curitiba, responsável pela produção da linha seca; e a unidade do Rio de Janeiro, que opera a linha líquida. A empresa empregava no final do ano passado 840 pessoas.