O ministro da Fazenda, Guido Mantega, insistiu ontem não haver risco de maior pressão inflacionária em razão da desvalorização do real, que, apenas ontem, alcançou 2,84%. Segundo ele, possíveis aumentos nos indicadores de preços seriam anulados pela queda na cotação internacional das commodities. Além disso, os insumos e outros bens importados não devem aumentar em curto prazo porque os contratos foram fechados há vários meses, com base numa taxa de câmbio maior.

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Ao desembarcar em Washington, onde participará da reunião de outono do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, Mantega disse não haver intenção do governo brasileiro de retirar as medidas adotadas nos últimos anos contra valorização do real. Para o ministro, “o câmbio está devolvendo o que se valorizou” nos últimos anos.

“Não haverá escalada da inflação”, afirmou. “É preciso que o patamar da taxa de câmbio permaneça (sem mudança) por algum tempo para ter efeito no mercado. Caso contrário, as flutuações, as oscilações se anulam”, completou.

Com inusitada resistência a ser entrevistado pela imprensa, que o esperava na estação de trens de Washington, Mantega acabou cedendo. Porém, manteve-se cauteloso. Ao longo das declarações, indicou que a desvalorização do real será passageira, já que a causa da corrida aos dólares está no estresse e na aversão ao risco dos mercados em relação ao eventual fracasso das negociações do FMI, do Banco Central Europeu (BCE) e da União Europeia com a Grécia.

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O ministro mostrou-se otimista sobre um possível acerto, no início da próxima semana, para permitir a Atenas o acesso à parcela de 8 bilhões de euros do acordo de 2010. Também assinalou não haver nenhum vencimento em curto prazo da dívida grega que pudesse ser alvo de suspensão de pagamentos.

“Parece que a negociação vai caminhar para um desfecho favorável. Então, não deveria haver perigo nenhum”, afirmou. “De qualquer maneira, os mercados continuam a dar sinais de estresse e nervosismo. Isso está levando a uma valorização do dólar no mundo todo. A Grécia é o calcanhar de Aquiles”, completou.

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A ausência de um acerto com a Grécia, entretanto, resultará no agravamento da crise e em pressões maiores sobre outros países europeus com elevado nível de endividamento. Segundo Mantega, uma “forte desvalorização” preocupa o governo brasileiro, especialmente por seus efeitos sobre setores do País endividados no exterior. Em outra mão, Mantega salientou possíveis benefícios ao setor exportador. “Não vamos fazer ilações. Para isso acontecer, a crise terá de se agravar muito.”

Mantega reiterou ontem ser responsabilidade da Europa prover o socorro financeiro a suas economias e esquivou-se de confirmar o possível compromisso dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul) de comprar títulos públicos dos países europeus mais vulneráveis. O grupo tratará do tema hoje, em paralelo à reunião do FMI e do Banco Mundial. Porém, com indisfarçável orgulho, Mantega salientou ser o Brasil “parte da solução”, como membro do FMI. “O FMI não precisa de mais dólares (para uma eventual ajuda a outras economias europeias) porque já tem US$ 1 trilhão disponível, no qual o Brasil colocou um dinheirinho.”

Hoje, Mantega tratará da questão grega em encontros com o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, e os ministros de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, e da Grécia, Evangelos Venizelos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.