Pressionada pela alta de preços dos alimentos, a inflação de produtos acumulada em 12 meses ultrapassou, pela primeira vez desde novembro de 2011, a de serviços em fevereiro e março. A reação a essa mudança foi imediata: as classes de menor renda, D e E, que gastam a maior fatia do que ganham com produtos, frearam as compras e cortaram em 11% as quantidades consumidas de itens básicos, especialmente alimentos, no primeiro bimestre ante o mesmo período de 2012.

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Isso é o que mostram um estudo da Federação do Comércio (Fecomércio) de São Paulo, que captou a mudança do perfil da inflação a partir de dados do IPCA para a cidade de São Paulo, e uma pesquisa da Kantar Worldpanel, que visita semanalmente 8.200 domicílios no País para radiografar o consumo.

“Fizemos uma edição extra da nossa pesquisa de consumo porque a indústria estava preocupada”, diz Christine Pereira, diretora da Kantar Worldpanel. No primeiro bimestre, antes de o governo desonerar os produtos básicos, o consumo da cesta, para todas as classes sociais, de 78 categorias de itens pesquisados, caiu 5% em número de unidades na comparação com igual período de 2012. Nessa mesma base de comparação, a quantidade ficou estável para as classes A e B e caiu 3% para a classe C.

O tombo nas quantidades consumidas ocorreu nas classes D e E, exatamente aquelas que sustentaram o crescimento das vendas de itens básicos em 2012, observa Christine. No ano passado, as classes D e E tinham ampliado em 3% as quantidades compradas de itens da cesta e desembolsaram 9% a mais por isso. Agora, as famílias mais pobres cortaram em 11% as compras e tiveram um gasto em reais 6% maior por causa da disparada da inflação.

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Além de cortar as quantidades compradas, as famílias em geral, exceto as das classes A e B, reduziram a frequência de compras para economizar. No primeiro bimestre foram, em média, 26 idas aos supermercados, ante 28 no mesmo período de 2012. Christine destaca que o bolso das famílias mais pobres ficou apertado porque elas gastam mais com produtos do que com serviços.

Perfil

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Foi exatamente essa mudança de perfil da inflação, provocada pela alta de preços dos produtos, que o estudo da Fecomércio-SP registrou. Fábio Pina, assessor econômico da entidade, elaborou um índice para apurar o custo de vida das classes sociais na cidade de São Paulo com base em dados apurados pelo IPCA para a capital.

Dos cerca de 400 preços pesquisados pelo IPCA, a medida oficial de inflação, ele considerou 85% deles, tidos pelo economista como básicos. Depois disso, Pina ponderou os itens por classes sociais.

O resultado mostrado por esse indicador é que a inflação acumulada em 12 meses até março subiu 6,18%, com os produtos registrando alta de 6,56% e os serviços (incluindo os preços dos serviços administrados) tendo aumentado 5,78% no período. “Foi a primeira vez desde novembro de 2011 que a inflação acumulada dos produtos ultrapassou a dos serviços”, afirma Pina.

Essa inversão de padrão, isto é, a variação dos preços dos produtos ultrapassando a d os serviços, castiga toda a população, mas é mais relevante para os mais pobres, diz o economista.

Em 12 meses até março, por exemplo, a inflação de produtos por esse indicador foi de 8,16% para a classe E e de 8,30% para a classe D. Enquanto isso, para as classes A e B, as elevações foram de 3,72% e de 5,21%, respectivamente. Para a classe C, a nova classe média brasileira, a alta acumulada foi de 6,8% em 12 meses até março.

Apesar de salgada para todos, a elevação dos preços dos serviços castigou nesse período a população de maior renda. Em 12 meses até março, os serviços subiram 6,48% para a classe A e 6,65% para a classe B. Já para as classes C, D e E, as elevações acumuladas foram menores, de 5,48%, 4,07% e 4,23%, respectivamente.

“Inflação de serviços é renda na veia”, diz Pina. Nas suas contas, para as classes D e E, os serviços respondem por 40% do custo de vida e os produtos por 60%. Para as camadas mais ricas, os serviços consomem 52% da renda e os produtos, 48%. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.