Guadalajara – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve um resultado importante ontem, em seu primeiro encontro bilateral, em Guadalajara, momentos antes da abertura da III Cúpula da América Latina, do Caribe e da União Européia. O presidente do governo da Espanha, José Luiz Zapatero, comprometeu-se a defender os interesses do Brasil nas negociações entre o Mercosul e a União Européia.

Lula pediu ao líder espanhol que ajude o Brasil a obter um maior acesso dos produtos agrícolas do Mercosul à Comunidade Européia, agindo sobretudo junto à França, que resiste a uma maior liberalização nas negociações do acordo comercial Mercosul-UE. O presidente insistiu neste ponto também no encontro que teve com o presidente da Comissão Européia, o italiano Romano Prodi. “O presidente Zapatero disse que vai falar com o governo da França para que sejam liberadas as restrições aos produtos agrícolas”, afirmou o porta-voz de Zapatero, Javier Valenzuela. “É a primeira vez que o presidente Lula conversa com Zapatero e a conversa foi bastante frutífera”, disse uma fonte do governo brasileiro.

Durante um café da manhã no hotel Camino Real, Zapatero aceitou convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para visitar o Brasil. O líder espanhol concordou, também, em associar-se ao Brasil, França e Chile e passar a ser parte do núcleo de países que lançaram uma iniciativa internacional contra a fome. Zapatero participará, assim, de reunião do grupo marcada para a sede das Nações Unidas, em Nova York, no dia 20 de setembro, véspera da abertura da assembléia geral da organização.

Junto com Lula, com os presidentes da França, Jacques Chirac, e do Chile, Ricardo Lagos, e com o secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, Zapatero passa integrar o que ele mesmo chamou de “Quinteto Contra a Fome”. A expressão foi cunhada pelo chefe do governo espanhol em discurso recente. Lula propôs também a Zapatero que Madri seja sede permanente de um secretariado da Cúpula América Latina, Caribe e União Européia. O líder espanhol ouviu com agrado a idéia e disse que terá que fazer consultas com outros países antes de assumir uma posição a respeito.

Iraque

A conversa de 45 minutos com Zapatero incluiu também uma breve troca de impressões sobre o Iraque. Mas os dois líderes demoraram-se mais no exame da situação no Haiti. Lula pediu que a Espanha participe, junto com o Brasil, a Argentina e o Chile, da operação de estabilização do miserável país caribenho, enviando tropas. Zapatero, que acaba de retirar os soldados espanhóis do Iraque, revertendo decisão do governo conservador que substituiu há menos de dois meses, disse a Lula que o presidente Lagos, do Chile, já lhe havia feito o mesmo pedido, em visita a Madri no início desta semana. Segundo seu porta-voz, Zapatero afirmou que sua “cabeça está se abrindo para a idéia”. Se decidir contribuir para a operação de pacificação do Haiti, a Espanha provavelmente enviará pessoal de sua Guarda Civil, a polícia nacional do país.

Além de participar da parte cerimonial da Cúpula, de falar numa mesa de trabalho do evento sobre coesão social, Lula teve um total de oito encontros bilaterais hoje (28) em Guadalajara. Depois de Zapatero, Chirac e Prodi, ele conversou com o chanceler alemão Gerhard Schroeder, com os presidentes do México, Vicente Fox, da Bolívia, Carlos Diego Mesa, do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, e da Guatemala, Oscar Berger Perdomo.

Pretendia ainda encon trar-se com seus colegas da Polônia, Aleksander Kwasniewski, da Hungria, Péter Medgyessy, que pediram encontros. Por causa do cansaço acumulado durante a viagem à China e da agenda intensa de ontem, o presidente não participou da entrevista coletiva final do evento, como estava previsto, nem do jantar de encerramento e abreviou em cinco horas sua permanência no México, iniciando a viagem de volta a Brasília no início da noite de ontem.