O presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu chamar para si a responsabilidade de convocar os países que compõem as maiores economias do mundo para a busca de um compromisso com a política cambial. Envolvido até o momento com a campanha presidencial que elegeu sua afilhada política, a petista Dilma Rousseff, a questão cambial vinha sendo discutida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, inclusive, anunciou ter tirado o véu da chamada guerra cambial, provocada pela desvalorização das moedas chinesa e norte-americana. Com o fim das eleições, Lula discute o tema, ao lado da presidente eleita Dilma Rousseff, na Reunião de Cúpula do G-20, que será realizada na quinta e sexta-feira, na Coreia do Sul.

No programa “Café com o Presidente”, veiculado na manhã de hoje, Lula reforçou que a desvalorização das moedas chinesa (yuan) e americana (dólar) está causando um desequilíbrio no comércio mundial. “E nós precisamos voltar a ter equilíbrio. Portanto, nós queremos discutir o compromisso de todos os países com a política cambial, que deixe o mundo confortável e todo mundo em igualdade de condições na disputa comercial”, disse.

Ao citar China e Estados Unidos como os principais atores na questão do câmbio, Lula foi exatamente no ponto que alguns analistas do mercado vêm debatendo. Na avaliação dos especialistas, os dois países vêm fingindo uma guerra cambial, mas a China é quem tem comprado grande parte dos dólares que o governo americano emite como forma de desvalorizar sua moeda e reduzir o custo da dívida americana.

A China compra os títulos dos EUA em troca da exportação de seus produtos para o mercado americano. Com os dólares que os chineses recebem dos EUA, eles têm comprado ativos reais em todo o mundo, inundando, principalmente, os países emergentes, entre eles o Brasil, de moeda norte-americana, o que tem levado as moedas locais à valorização em relação ao dólar. Isso acaba desestimulando as exportações locais e estimulando as importações. Por isso existe a preocupação do governo brasileiro com o que o presidente Lula chama de “desequilíbrio no comércio mundial”.

A guerra cambial passou a chamar a atenção depois que a Suíça e o Japão intervieram nos seus respectivos câmbios em setembro. Depois das intervenções destes dois países, outros foram atrás e adotaram medidas com o objetivo de reduzir a entrada de dólares nas suas economias. No Brasil, o Ministério da Fazenda elevou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos estrangeiros em renda fixa de 2% para 6% e elevou a alíquota de 0,38% para 6% sobre o recolhimento de margens de garantias sobre as operações de derivativos na BM&FBovespa.

Crescimento

Lula disse ainda, no programa “Café com o Presidente”, que ele e Dilma vão discutir no G-20 a retomada do crescimento econômico, sobretudo nos Estados Unidos e na União Europeia, regiões onde o consumo interno está muito pequeno. “O mercado interno está enfraquecido e nós precisamos dinamizar a economia. E dinamizar a economia significa aquecer o comércio; aquecer o comércio significa a gente não impor barreiras para o livre comércio. Então, eu acho que essa é uma coisa importante que nós vamos discutir”, afirmou o presidente.

O presidente acrescentou que pretende discutir, no âmbito do G-20, um instrumento de controle do sistema financeiro. Esse tem sido também um ponto que vem sido repetido exaustivamente pelo presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. De acordo com Lula, o sistema financeiro, depois da irresponsabilidade da crise de 2008, não pode continuar sem controle. “É preciso, no mínimo, que tenha um instrumento multilateral que possa fiscalizar a alavancagem do sistema financeiro mundial, para evitar especulação, sobretudo como aconteceu no mercado imobiliário americano, ou no mercado futuro, sobretudo de commodities”, explicou Lula, acrescentando que é preciso que se fique atento quanto a isso.

Além de Lula e Dilma, vão compor a delegação que irá a Seul, para o encontro do G-20, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o embaixador do Brasil em Seul, Edmundo Sussumu Fujita, o tradutor Sérgio Soares Xavier Ferreira, a ex-diretora de Jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação e coordenadora da campanha de Dilma nessas eleições, Helena Maria de Freitas Chagas, e o jornalista e ex-assessor de Dilma na Casa Civil Anderson Braga Dorneles.