Economia

Lula considera Galípolo traidor por juros altos e caso Master

O presidente Luis Inácio Lula da Silva
Luis Inácio Lula da Silva. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva considera Gabriel Galípolo, que ele mesmo indicou para comandar o Banco Central, o maior traidor de sua trajetória política. Os motivos são o ritmo lento de cortes da taxa Selic em ano eleitoral e a postura no caso Banco Master. As informações são da Gazeta do Povo.

Publicamente, Lula já disse estar triste e frustrado com os juros elevados. Mas, segundo apuração do Poder360, o petista afirmou a interlocutores que a traição de Galípolo supera até a do ex-ministro Antonio Palocci, que o acusou de receber propina na Lava Jato. Galípolo foi coordenador de campanha de Lula na área econômica em 2022, secretário-executivo da Fazenda e diretor de Política Monetária do BC antes de assumir a presidência da instituição.

Quando Galípolo assumiu o BC em janeiro de 2025, a Selic estava em 12,25%. A taxa subiu até 15% e hoje está em 13,75% ao ano, após corte de 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (16). Lula já cobrava publicamente de Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC indicado por Jair Bolsonaro, a redução dos juros e acusava a manutenção da Selic alta de tentativa de desestabilizar seu governo.

A definição da Selic cabe ao Comitê de Política Monetária (Copom), que toma decisões com base nas condições econômicas e nas perspectivas para a inflação. O Copom justifica os juros elevados pela necessidade de conter pressões inflacionárias e garantir que a inflação convirja para a meta de 3% ao ano.

Lula nega rompimento em público

Segundo a Folha de S. Paulo, o presidente negou a banqueiros e empresários, em jantar no Palácio da Alvorada em 31 de agosto, que considera Galípolo um traidor. Mas reafirmou o descontentamento com os juros altos e disse que o dirigente tem um mandato a cumprir no BC, o que será respeitado.

O ministro Guilherme Boulos (PSOL) afirmou que a queda da Selic é decepcionante e ocorre em ritmo de tartaruga. Durante sabatina na TV Record na terça (15), ele disse que a autonomia do BC limita a capacidade de um presidente eleito de conduzir a política econômica conforme o programa aprovado nas urnas. O ex-ministro José Dirceu também criticou Galípolo e questionou a explicação para a Selic atual.

Caso Master aumenta atrito entre presidente e BC

O escândalo do Banco Master é outro motivo de decepção de Lula com Galípolo. O PT tentou vincular Campos Neto a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para atribuir ao governo Bolsonaro a responsabilidade pelas fraudes da instituição. A estratégia esbarrou no próprio BC: na CPI do Crime Organizado, Galípolo blindou Campos Neto ao dizer que nenhuma auditoria ou sindicância aponta culpa do ex-presidente da autoridade monetária.

Em agosto, o Brasil mantinha a segunda maior taxa de juros real do mundo, de 9,33% ao ano, atrás apenas da Rússia (9,67%), segundo a MoneYou. O Copom destacou que o esmorecimento no esforço de disciplina fiscal, as incertezas sobre a estabilização da dívida pública e o aumento do crédito direcionado tendem a manter as taxas elevadas.

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, aponta outros fatores que dificultam a redução dos juros: o calendário eleitoral tende a pressionar o câmbio, o El Niño ameaça os preços dos alimentos até o início de 2027, os preços dos serviços seguem resilientes e o barril do petróleo voltou a ser cotado acima de US$ 100.

André Esteves, presidente do conselho do BTG Pactual, afirmou que o principal passo para consolidar a estabilidade macroeconômica é chegar a taxas de juros civilizatórias. Ele disse que o juro sair de 14% para 7% vale mais do que qualquer programa social ou política de governo. Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital, não vê espaço para cortes expressivos nos próximos meses, já que as expectativas de inflação para 2027 estão em torno de 4,3%, desancoradas da meta de 3%.

A Gazeta do Povo contatou a assessoria de Galípolo e a Secretaria de Comunicação do governo, mas não houve retorno até o fechamento da reportagem.

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