Brasília – O iminente aumento dos juros nos Estados Unidos, que abalou os mercados financeiros na semana passada, deverá encarecer o crédito externo para o Brasil e reduzir as cotações internacionais de produtos como aço e soja, que estão em níveis recordes e sustentam a balança comercial. Na avaliação de economistas, o reflexo direto no Brasil de uma elevação dos juros norte-americanos será na cotação do dólar, que fechou a semana acima dos R$ 3 após nove meses de estabilidade. Caso o câmbio suba muito, o Banco Central (BC) poderá até ser forçado a elevar os juros básicos, hoje em 16% ao ano, para cumprir as metas de inflação, freando a atividade econômica e adiando mais uma vez o prometido “espetáculo do crescimento”.

“Os constrangimentos vêm pelo lado comercial e financeiro. Mesmo no cenário de um aumento moderado dos juros americanos, o Brasil deve ter crescimento em 2004 caso se aceite uma inflação mais alta que a meta de 5,5% fixada pelo governo”, disse o economista Ricardo Carneiro, diretor do Centro de Conjuntura Econômica da Unicamp, deixando claro que diante dessa nova realidade, se o BC perseguir o centro da meta de inflação de 5,5% para este ano, provavelmente terá de subir os juros e comprometer o crescimento.

“Com a alta dos juros americanos, não se deve concretizar a previsão de crescimento de 3,5% este ano, que já é um desempenho inferior à média do restante do mundo”, afirmou o diretor da Nix Asset Management, Francisco Petros.

O professor da FGV-Rio e diretor do Banco Itaú, Sérgio Werlang, acredita numa alta gradual dos juros norte-americanos, dos atuais 1% ao ano para 5% no fim de 2005. Segundo ele, a mudança vai encarecer o crédito para países emergentes, como já se viu na elevação do risco-Brasil de 400 pontos em fevereiro para mais de 700 pontos na última semana. Isso representa 3% ao ano a mais de custo para governo e empresas brasileiras captarem recursos no mercado internacional.

– A China seria uma saída para suavizar o impacto dos juros americanos para o exportador brasileiro. A demanda dos chineses deve continuar crescente, mas não ao ritmo de 2003, quando dobraram as exportações brasileiras para a China – avaliou Werlang, lembrando que os efeitos dos juros norte-americanos são piores para o Brasil do que para a Argentina, devido ao endividamento.

Juros norte-americanos maiores prejudicam justamente a renovação da dívida externa pública e privada do Brasil. Os vencimentos em 2004 somam US$ 39,2 bilhões, frente aos US$ 27,2 bilhões de 2003. Em 2005, são US$ 30,7 bilhões. A dificuldade de rolagem da dívida externa fez com que o dólar atingisse a cotação de R$ 4 em outubro de 2002.

O ministro do Planejamento, Guido Mantega, acredita, no entanto, que o câmbio flutuante poderá absorver melhor os choques que seriam contrabalançados pelo comércio exterior financiando as contas externas.

“Eu não vou dizer que não vai ter impacto. O investidor vai atrás de segurança e lucro”, disse Mantega.

Um dos pontos fortes da economia, as exportações, no entanto, também sofreriam reflexos com um aumento dos juros nos Estados Unidos. Ricardo Carneiro disse que os juros baixos nos EUA nos últimos anos criaram uma bolha especulativa nas “commodities” (soja, aço etc.), resultando nas cotações mais altas em 15 anos. Isso porque, diz ele, os mercados operam conjuntamente em títulos, imóveis e “commodities”, sobretudo no arriscado mercado de derivativos.

Werlang concorda que o carro-chefe das exportações brasileiras será atingido em cheio pelas conseqüências de um aumento dos juros americanos. Para ele, os juros encarecerão o custo de armazenagem de soja, por exemplo, forçando a redução de estoques. Ele projeta queda de até 15% nas cotações a médio prazo.

A consultoria MCM calcula que, se os preços internacionais da soja retornarem aos níveis de 2002, em 2005 o superávit comercial do Brasil cai de US$ 19 bilhões para US$ 13 bilhões, apenas pelo efeito das cotações menores.