Rio – No último dia 5, a usina hidrelétrica de Itaipu, a maior do mundo, com 13.600 megawatts de capacidade, completou 20 anos em operação. E no próximo dia 17, completará 30 anos de existência. Chamada na época de sua construção, na década de 70, de elefante branco devido ao seu gigantismo, ela acabou se tornando fundamental para o abastecimento de energia elétrica no País. Hoje Itaipu é responsável por 25% da energia consumida no Brasil.

Se quando a primeira turbina, em 1984, entrou em operação, sobrava energia no País, agora Itaipu não é apenas fundamental para o abastecimento de energia, como vai contribuir para afastar o risco de um novo colapso de energia a partir de 2006/07. A empresa que administra a usina, a Itaipu Binacional (gerida por representantes do Brasil e do Paraguai), está instalando mais duas turbinas de 700 megawatts cada uma. A capacidade de cada uma dessas turbinas é suficiente para abastecer uma cidade com dois milhões de habitantes.

O diretor-geral brasileiro da Itaipu, Jorge Samek, explicou que as duas turbinas estão em fase de instalação devendo entrar em operação no segundo semestre de 2005. Com investimentos de US$ 190 milhões nas duas turbinas, a usina atingirá uma capacidade total de 14 mil megawatts.

O executivo destaca que Itaipu será ultrapassada em termos de potência pela usina Três Gargantas, da China, prevista para ter uma capacidade total de 18.200 megawatts (MW). Mas mesmo assim, em termos de geração de energia Itaipu continuará sendo a maior do mundo. Itaipu gera até 90 bilhões de quilowatts/h por ano de energia, enquanto que a usina chinesa terá condições de gerar 86,7 bilhões de KWh/ano.

“Itaipu continuará sendo a maior geradora de energia do mundo, porque temos maior volume de água, temos 135 mil hectares de reservatório. O rio onde está a usina chinesa fica com mais de 30% de suas águas congeladas durante muitos meses”, disse Samek.

Tudo em Itaipu é gigante: do faturamento anual de US$ 2,4 bilhões aos custos. A usina teve um custo de US$ 12 bilhões, só que devido aos longos períodos de atrasos em suas obras suas dívidas dispararam. Por ser uma obra binacional (Brasil e Paraguai), todos os custos são cotados em dólares americanos. Segundo Samek, já foi pago por Itaipu US$ 25 bilhões, e faltam ainda mais US$ 19 bilhões. Isso significa que a usina vai ter um custo total superior a US$ 45 bilhões quando terminar de ser paga em 2023.

“Foram muitos planos econômicos e muitos anos de atraso quando se pagavam apenas os juros sobre juros, o que elevou o seu custo. Mas agora Itaipu está rigorosamente em dia”, ressaltou Samek ao explicar que a usina paga anualmente US$ 1,5 bilhão referentes ao principal e juros.

O diretor-geral da Itaipu lembra que Itaipu produziu ao longo dos seus 20 anos de operação um total de 1,2 bilhão de megawatts/hora. Essa energia seria suficiente para abastecer todo o mundo por um período de 36 dias.

“Quando entrou em operação, havia sobra de energia e, por isso, os preços eram muito baixos, em torno de US$ 10 o megawatt/hora. Além dos atrasos nas obras, quando começou a funcionar com uma receita baixa, a empresa teve que se endividar ainda mais para poder rolar o pagamento dos juros dos empréstimos. Por isso, o valor aumentou tanto”, disse.

No início, a usina respondia por 35% da energia consumida no Paraguai e por 3% no Brasil. Hoje além de fornecer 25% da energia consumida no País é responsável por 95% do total consumido no Paraguai. O Paraguai recebe US$ 220 milhões por ano em “royalties” e mais US$ 100 milhões de venda de energia, que representa 25% da receita daquele país.

Obra foi feita no governo militar

Marco das poucas obras grandiosas do regime militar que foram bem-sucedidas, ao contrário da Transamazônica, Itaipu começou a ser cogitada quase dez anos antes de 1964. O aproveitamento do potencial hidrelétrico do Rio Paraná, entre Sete Quedas e a confluência com o Rio Iguaçu, foi proposto primeiro pelo grupo privado canadense Light em 1953. O governo não acolheu a proposta por preferir atender à solicitação da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Paraguai que, em 1956, queria explorar o trecho do curso superior do rio (Jupiá e Ilha Solteira).

Quatro anos depois, Juscelino Kubitschek se entusiasmaria com o projeto da usina de Sete Quedas, mas só no mandato de João Goulart o plano ganharia vulto. O projeto encomendado ao engenheiro Otávio Marcondes Ferraz previa uma usina com 10 mil MW, com a construção de barragem acima de Sete Quedas, as águas do Rio Paraná num canal ao longo da margem brasileira do rio, até Porto Mendes, local planejado para a casa de força. A unilateralidade do projeto, que conservava Sete Quedas, desagradou ao governo paraguaio. Como o trecho de terra irrigado pelo rio era administrado em regime de condomínio por Brasil e Paraguai, Jango aceitou negociar o aproveitamento conjunto de Sete Quedas, mas não foi adiante.

Em 1965, o Paraguai reiterou o pleito, o que resultou na Ata do Iguaçu, estendendo o condomínio aos recursos hídricos da fronteira. Dois anos depois, seria criada a Comissão Mista Técnica Brasileiro-Paraguaia para estudar o aproveitamento do rio. Mas a obra de Itaipu só deslanchou em 1970 com o acordo de cooperação Eletrobrás-Ande, estatal paraguaia de energia elétrica. Daí seguiu-se o Tratado de Itaipu, firmado por Médici e Stroessner, para construção e operação da usina, inaugurada enfim em 1984.

Lembranças e orgulho

“Não vi meus filhos crescerem, mas me sinto orgulhoso por fazer parte da história dessa usina desde a sua construção.” A afirmação é de Gilmar Fabro, 47 anos, um dos funcionários mais antigos, que começou a trabalhar na Itaipu Binacional em 1977, época do início das obras e está lá até hoje.

Gilmar Fabro é coordenador do laboratório de Análises de Concreto da usina. Sua equipe monitora 24h por dia, todos os dias, a área de concreto de 1.200 mil metros cúbicos, incluindo vistorias visuais in loco.

“Na época que fui para participar de sua construção, apesar de terem me falado que seria a maior hidrelétrica do mundo, eu não tinha noção da magnitude da obra – conta Fabro. “Chegou a ter cerca de 40 mil pessoas trabalhando, era um formigueiro humano trabalhando sem parar. A gente dormia com o barulho das máquinas.”

Fabro lembra até hoje histórias curiosas durante a obra. Uma vez, ao saber que participantes de um seminário sobre barragens iriam conhecer a usina, ele pediu a um colega de trabalho, Sebastião, que trocasse de roupa para receber os visitantes.

“Ele estava com um avental de couro sem blusa por baixo por causa do forte calor. Diante do meu pedido para se arrumar e receber as pessoas, ele tirou as luvas e perguntou “Mas, afinal, o que um seminarista quer com uma barragem?”

Diretor fala do tempo em que era contra a obra

Há cerca de 20 anos o estudante Jorge Samek participou dos movimentos contra a construção da usina hidrelétrica de Itaipu. Agora, aos 49 anos, ele é o diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional e fala com orgulho dos planos que tem para a usina. A Itaipu Binacional é como o Vaticano, tem leis próprias e independentes das ingerências políticas tanto do Brasil como do Paraguai. Samek quer desenvolver projetos até de turismo.

O que o senhor fazia quando começou a obra?

JORGE SAMEK: Eu fazia vestibular. Meu pai era fazendeiro e perdeu terra. Uma das vertentes do Movimento dos Sem Terra (MST) surgiu com o movimento dos agricultores em Foz do Iguaçu contra a usina.

O projeto surgiu de uma disputa política entre o Brasil e o Paraguai?

SAMEK: De um lado Brasil e Paraguai disputavam a propriedade das Sete Quedas, e a Argentina reclamou dizendo que o projeto era uma bomba hidráulica. Isso foi solucionado com um acordo tripartite.

O senhor participou de protestos contra a usina?

SAMEK: Hoje estou aqui, mas no dia do enchimento do lago, em 1982, acampei lá junto com meus colegas de faculdade. Tinha 12 mil pessoas, foi uma semana de música, rock, teatro. O enchimento do lago foi muito rápido, em dez dias.

Como se sente tendo sido contra e agora dirigindo Itaipu?

SAMEK: Eu me sinto muito bem, obrigado. Cada coisa em seu tempo. Eu sou nascido em Foz do Iguaçu e hoje é um orgulho dirigir a empresa.

O projeto foi criticado devido ao impacto no meio ambiente e ao seu tamanho. E agora, passados 30 anos?

SAMEK: Foi um projeto amplamente vitorioso. Colocou-se bilhões de dólares nele, mas deu certo. O Brasil desenvolveu tecnologia para a usina.

Hoje seria possível fazer esse projeto?

SAMEK: Com a consciência ambiental, hoje não seria construída. Só foi possível porque os governos da época eram militares.

Como é tratada a questão ambiental?

SAMEK: A usina tem o maior programa ambiental do mundo, com 2.400 quilômetros de matas preservadas. Temos um parque binacional que se interliga com o Pantanal até a Argentina. Vamos desenvolver mais o turismo ecológico. Na usina quero fazer jardins como no Palácio de Versailles, na França.