Rio (AE) – O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento, vai elevar sua projeção para a variação do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas geradas no País) este ano para um número superior a 3,6% – previsão que consta no último boletim trimestral de conjuntura, de dezembro – e menor que 4%. O número exato será divulgado amanhã, com a publicação da edição deste mês do boletim de conjuntura do Ipea.

O economista do Ipea Fábio Giambiagi, que adiantou as informações em entrevista à imprensa ontem na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), disse que o Ipea poderá fazer nova revisão após a divulgação dos números do PIB com a nova metodologia desenvolvida pelo IBGE para a pesquisa de Contas Nacionais. No fim deste mês, será divulgada a variação do PIB com a metodologia nova. Pela atual, o PIB cresceu 2,9% no ano passado.

Ele entende que ainda não se deve considerar eventuais efeitos das turbulências nos últimos dias no mercado financeiro mundial nas projeções do PIB. ?Evidentemente, se tiver uma ?carnificina? no mundo, as coisas podem mudar. Mas no momento me parece prematuro e até indevido fazer previsões de colapso da economia mundial?, disse. ?Em 1994, o México tinha problemas no balanço de pagamentos. Em 1998, a Rússia tinha problemas. Mas ninguém acha que haja problemas sérios com a economia chinesa?, afirmou.

Giambiagi, que fez a apresentação de encerramento do seminário ?Cenários da Economia Brasileira e Mundial em 2007?, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), não chegou a ver a apresentação no início da manhã do ex-diretor do Banco Central e sócio da Ciano Investimentos, Ilan Goldfajn, para quem as turbulências são fruto da preocupação com os Estados Unidos, não com a China.

Giambiagi observou que na economia americana há ?um problema moderado fiscal e um problema grave no balanço de pagamentos somado a um boom do mercado imobiliário?. Porém, minimizou os efeitos disso sobre a maior economia do mundo: ?O que seria um problema na economia americana? Em vez de crescer 3,5%, crescer 2,5%??. De acordo ele, se isso acontecer, o Brasil pode crescer menos que o previsto, mas enfatizou que ?estamos falando de fenômenos completamente diferentes que em 1995, 1997 e 1998?. O fato de o Brasil ter US$ 100 bilhões nas reservas internacionais e uma dívida externa reduzida (menor que as reservas) ?confere uma fortaleza inequívoca? ao País.

Na sua palestra no seminário, Giambiagi disse que na média de 1995 a 2006, o Brasil só cresceu mais nas Américas que seus sócios do Mercosul, Uruguai, Paraguai, Venezuela e Argentina. Somando a esse período o desempenho esperado para este ano, Argentina e Venezuela devem superar o Brasil, que ficará com a terceira pior média do continente, na frente apenas de Uruguai e Paraguai.

O baixo crescimento do PIB é atribuído por ele ao nível também baixo do investimento no conceito de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), integrado por construção civil e máquinas e equipamentos. ?O investimento só alcançou o nível de 1980, como número índice, no ano passado?, disse. Mas considerando o aumento do PIB acumulado desde 1980, ?a taxa de investimento real hoje é muito inferior a de 1980?.

Giambiagi disse que a parte doméstica do PIB tem crescido. No entanto, a variação do PIB em 2006 foi só de 2,9% porque com o aumento das importações houve uma contribuição negativa do setor externo de 1,4 ponto percentual. ?Acho que foi um erro de marketing político ter colocado tanta ênfase no indicador PIB em vez de, por exemplo, na absorção interna. Alguém devia ter soprado no presidente: ?Presidente, o povo não come PIB??, disse Giambiagi.