As despesas brasileiras com pagamento de impostos dobraram entre 1974-1975 e 2002-2003. Números da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) mostram que gastos com impostos, contribuições trabalhistas, serviços bancários, as chamadas despesas correntes, representaram 10,85% do total das despesas familiares no período de 2002-2003. Em 1974-1975, a despesa com outros gastos correntes consumia apenas 5,27% do orçamento familiar brasileiro.

Exemplo do peso das despesas correntes são os impostos, que representavam apenas 0,06% do orçamento familiar em 1974-1975. Em 2002-2003, os impostos passaram a morder 4,46% das despesas familiares. Pagando mais impostos, as famílias brasileiras acabaram reduzindo a compra de bens de grande valor agregado, como imóveis.

A participação das despesas com aumento de ativos (compra de casas, reforma e outros investimentos) no orçamento doméstico caiu de 16,5% em 1974-1975 para 4,76% em 2002-2003. Os dados incluem apenas os impostos diretos, como IR (Imposto de Renda), IPVA (imposto do carro), IPTU (imposto da casa).

A pesquisa não considera o peso dos impostos de consumo – como ISS e ICMS -, que pesam mais para as famílias de menor renda, já que direcionam a maior parte da remuneração para o consumo.

Mordida

Segundo a POF, as famílias brasileiras gastaram R$ 79,31 por mês, em média, com o pagamento de impostos diretos. O valor corresponde a cerca de 4,46% do orçamento familiar.

O valor da mordida fiscal varia de acordo com a faixa de renda das famílias. Para as famílias com renda máxima de R$ 400, os impostos representam 1,23% (R$ 5,61) das despesas mensais.

Já as famílias que ganham mais de R$ 6.000 por mês chegam a pagar R$ 781,31 por mês em impostos, o equivalente a 8,96% da despesa familiar total.

Menos renda

Além disso, a POF mostrou que a renda média mensal de 85% das famílias brasileiras não é suficiente para pagar todas as contas do mês. Só 15 em cada 100 famílias têm renda para chegar ao final do mês sem dificuldade para pagar as dívidas.

Endividamento

Com os impostos consumindo boa parte da renda e sem dinheiro para pagar todas as contas do mês, as famílias brasileiras acabam gastando mais do que ganham.

De acordo com a POF, a despesa média mensal das famílias brasileiras foi de R$ 1.778,03 no período de 2002-2003.

Para as famílias que ganham até R$ 400, o gasto foi R$ 454,70, ou seja, R$ 54,70 a mais do que a renda máxima desta faixa salarial.

O endividamento foi ainda maior para as famílias que ganham mais de R$ 6.000 mensais. Para essas, a despesa média foi de R$ 8.721,91 por mês.

Somente as famílias com renda entre R$ 2.000,01 e R$ 3.000 tiveram uma despesa inferior ao ganho obtido. Para essas famílias, a despesa média mensal foi de R$ 2.450,03 por mês.

Qualidade do consumo

A participação das despesas com consumo no orçamento familiar subiu de 74,59% (1974-1975) para 93,26% (2002-2003).

Esse aumento de 10,48% nas despesas com consumo é inferior à elevação de 105,88% nos outros gastos correntes.

Mesmo direcionando uma parcela maior do orçamento para o consumo, as famílias brasileiras estão insatisfeitas com a qualidade da alimentação e moradia, os dois itens que mais consomem recursos da despesa doméstica.

Para 47% das famílias brasileiras, a quantidade de alimento consumido é insuficiente. Por falta de dinheiro, 56,1% das famílias brasileiras nem sempre consomem o tipo preferido de alimento.

Somando ao percentual de famílias que raramente consomem os alimentos preferidos, o País tem cerca de 73% de famílias insatisfeitas com a alimentação.