Se a guerra durar pouco – no máximo dois meses – como a maioria dos analistas prevê, o impacto na economia brasileira será pequeno, avaliam economistas. A principal preocupação seria o abastecimento de petróleo, mas como o Brasil é quase auto-suficiente, produzindo cerca de 85% do que consome, não há risco de faltar combustíveis. Outros países produtores já se comprometeram a garantir o fornecimento. O mercado financeiro teve um comportamento tranqüilo no primeiro dia do conflito. Já no comércio exterior, espera-se uma retração tanto de exportação quanto de importação, que pode ser compensada após o encerramento da guerra.

“Não dá para fazer uma avaliação muito precisa, porque para isso precisaríamos ter uma idéia mais clara da intensidade da guerra e dos efeitos macroeconômicos mais evidentes”, opina o economista Gilmar Lourenço, professor da FAE Business School. “Imagina-se que seja uma guerra de curta duração e que tenha um efeito mais localizado na própria região do conflito”. À primeira vista, ele projeta queda, ainda que em curto prazo, nos fluxos de comércio e desaceleração da economia mundial. “Certamente os principais mercados do Brasil e do Paraná apresentarão retração, podendo comprometer os esforços do País e do Estado na geração de divisas”, considera.

Embora a atividade econômica do País venha a reduzir o ritmo, a balança comercial não sentirá um impacto tão grande, diz o economista, já que o decréscimo da atividade econômica mundial e brasileira implicará em menos importações. “O comércio com o Oriente Médio representa 8% da pauta de exportações paranaenses, contra 4% de média brasileira”, revela Lourenço. “O agronegócio do Paraná pode sentir de forma mais intensa os efeitos desse conflito, principalmente porque não existirá alternativa de explorar novas frentes de mercado”. A região da guerra é grande consumidora de carnes de frango do Estado.

“Não dá para projetar perdas no momento do conflito, a não ser localizadas, principalmente no segmento de agronegócio, mas supondo que a guerra seja localizada e de curta duração, os efeitos negativos podem ser compensados com a recuperação da economia mundial pós-conflito”, pondera. Não fosse a perspectiva de guerra, os fatores mundiais são favoráveis: “Os EUA trabalham com juro baixo, de 1,25% ao ano e a Europa, que é mais conservadora, com 3% ao ano. Resolvido o problema político-militar, a economia mundial tem chances de ingressar em fase de reativação e tanto o Brasil quanto o Paraná devem procurar aproveitar a nova etapa de crescimento”, avalia Lourenço.

O valor dos produtos exportados não deverá subir, mas os custos sim, alerta Carlos Augusto Albuquerque, assessor da Federação da Agricultura do Paraná (Faep). “Um aumento do valor dos combustíveis e da insegurança no mundo inteiro fará os fretes marítimos e o seguro de cargas aumentar, tornando a exportação mais cara”, fala. “Aparentemente a guerra não vai criar grandes problemas, mas dependendo da duração, o PIB mundial pode não crescer”, cita Albuquerque.

Cenários

O analista financeiro Sérgio Martenetz, diretor da SM Consultoria Econômica, montou três cenários. O primeiro é o que ele considera mais provável: “a guerra durando entre uma semana a um mês provavelmente teria muito pouca influência na economia brasileira”. “Todos os indicadores financeiros e de mercados não foram afetados pelo início da guera e fecharam positivos. Nesse compasso, os índices devem continuar positivos”, afirma.

Caso o conflito se prolongue por mais de um mês e mostre ser de difícil desfecho, “naturalmente a economia mundial passa a ter uma recessão mais acentuada”. “Haveria diminuição dos fluxos financeiros para países emergentes e o risco-Brasil subiria bastante”, projeta. Um terceiro cenário inclui a hipótese de atentado terrorista em alguma capital mundial. “Isso normalmente gera pânico, que se transmite para todos os mercados”, prevê Martenetz.

Conflito trará prejuízos

São Paulo

(AE) – A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad, sigla em inglês) acredita que a deterioração das relações políticas e diplomáticas entre os EUA e a França por causa da decisão de Washington de atacar o Iraque prejudicará significativamente as negociações comerciais no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). E, no meio disso tudo, o país mais prejudicado será o Brasil, principalmente na área agrícola, onde o País vem depositando suas maiores fichas para abrir, de vez, os mercados desses dois países, considerados entre os mais protecionistas do planeta.

“Temo que as relações bilaterais entre os EUA e França possam ficar ainda mais delicadas do que estão agora e, com isso as negociações agrícolas no âmbito da OMC, que no momento já estão praticamente interrompidas, não sejam retomadas na reunião ministerial de Cancun (México), agora em setembro deste ano”, disse o secretário geral da Unctad, embaixador Rubens Ricupero.”Isso vai atingir duramente o Brasil.”

Para o embaixador, se não houver sinais de reconciliação entre esses dois países, mesmo que a guerra EUA/Iraque tenha curta duração, as negociações comerciais multilaterais serão as mais prejudicadas. Além disso, acrescentou Ricupero, “a guerra pode trazer graves problemas para economias em desenvolvimento, como o Brasil, que vêm lutando para ajustar as suas economias às exigências do FMI”.

Barril fecha em queda de US$ 1,27

O petróleo continuou caindo nesta quinta-feira no mercado futuro de Nova York, num pregão muito animado, com os investidores hesitando entre sua fé em uma rápida vitória dos Estados Unidos no Iraque e os temores de problemas no abasecimento do mercado.

Em Nova York, o preço do cru de referência (light sweet crude) para entrega em abril -que expirou ontem – fechou a 28,61 dólares o barril, em baixa de 1,27 dólar em relação ao fechamento de quarta-feira (a 29,88 dólares).

Por outra parte, o contrato para maio fechou em baixa de 1,06 dólar a 28,30 dólares.

Os negócios foram muito voláteis, com os investidores divididos entre o início da ofensiva americana no Iraque (um fator de baixa) e a versão de que poços petrolíferos ardem em chamas no país árabe.

Quando se soube dessa notícia, as cotações subiram até 30,60 dólares. Durante a noite de quarta-feira, nos negócios fora de hora, o preço do óleo caiu 28 dólares.

“Os preços estiveram em alta durante toda a manhã por causa dos poços de petróleo incendiados no Iraque, mas desde que as redes de televisão começaram a mostrar bombas que caíam sobre Bagdá, a tendência se reverteu”, disse Michael Fitzpatrick, analista da corretora Fimat.