O governo federal abriu processo para aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos, mas ainda tenta negociar com o presidente Donald Trump. Nesta sexta-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para Trump para contestar as taxas aplicadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). A conversa durou cerca de 1h20min e teve tom amistoso, segundo o Planalto. Lula argumentou que as tarifas afetam negativamente a economia de ambos os países. As informações são da Gazeta do Povo.
Os Estados Unidos aplicaram tarifas de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros, que podem levar a alíquotas totais de até 37,5% em alguns casos. O governo brasileiro notificou os EUA e solicitou consultas diplomáticas, etapa prevista antes de eventuais contramedidas. A abertura do processo não significa a adoção imediata de novas tarifas.
Lula elevou o tom ao afirmar que vai “vencer os Estados Unidos na narrativa” e que o Brasil foi taxado baseado em mentiras. “Nós entramos com a lei de reciprocidade para mostrar que a gente também não é pouca coisa”, declarou o presidente em entrevista para podcasts.
Setor produtivo alerta para riscos de escalada comercial
Entidades ligadas à indústria e ao agronegócio têm alertado para os riscos de uma guerra tarifária. Federações como Fiesp, Fiemg e Farsul afirmam que a disputa pode transferir custos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros. Uma eventual tarifa brasileira incidiria sobre produtos importados dos EUA, como máquinas, equipamentos e insumos utilizados pela indústria nacional.
Estudo da Fiemg estimou que, em um cenário hipotético de sobretaxa recíproca de 50% sobre importações dos Estados Unidos, a perda para o PIB brasileiro poderia chegar a R$ 259 bilhões, equivalente a 2,21%. A entidade afirmou que “retaliar importações de insumos pode aumentar custos de produção, reduzir competitividade e fazer com que o país pague duas vezes pela mesma disputa”.
Patrícia Arantes, diretora-executiva da Sociedade Rural Brasileira, afirma que novas tarifas agravariam o elevado Custo Brasil. “Tudo que eleva esse custo tem um impacto grande para o brasileiro”, diz. Empresas que não conseguirem absorver o custo adicional poderão repassar parte dele ao preço final dos produtos.
Entidades defendem negociação em vez de retaliação
A Câmara Americana de Comércio para o Brasil informou que 90,5% das empresas consultadas preferem o aprofundamento da diplomacia com os Estados Unidos, enquanto apenas 3,2% apoiam represálias. Entidades como Abimaq e Abit também manifestaram preocupação com medidas de confronto.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), relatora da Lei da Reciprocidade no Senado, considera que o mecanismo deve ser usado somente depois de esgotadas as alternativas de negociação. Em entrevista ao Valor Econômico, ela argumentou que uma guerra tarifária pode levar os dois países a um cenário de “perde-perde”.
Renan Hein dos Santos, assessor de assuntos internacionais da Farsul, avalia que uma medida de reciprocidade pode abrir espaço para nova reação de Washington. “É realmente muito difícil saber para que lado vai essa conversa”, afirma. Ele aponta que o cenário é particularmente sensível para o agronegócio, já que os Estados Unidos são cliente importante para vários produtos do setor.
Patrícia Arantes alerta para o custo estratégico de deteriorar a relação comercial com os Estados Unidos, parceiro construído ao longo de mais de dois séculos. “Quanto mais nós tornarmos um parceiro histórico em um inimigo do comércio, mais o Brasil perde”, afirma.
