Economia

Governo estuda proibir bets e pode enfrentar ações bilionárias

Cúpula da Câmara dos Deputados no Congresso Nacional, com os prédios da Esplanada dos Ministérios
Cúpula da Câmara dos Deputados no Congresso Nacional, com os prédios da Esplanada dos Ministérios. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estuda medidas para aumentar o controle ou até proibir as bets (sites de apostas online) na reta final da campanha eleitoral. A guinada ocorre menos de três anos após o próprio governo petista criar o marco regulatório do setor, que estabeleceu regras, tributos e exigências às empresas. As informações são da Gazeta do Povo.

Pesquisa da Atlas divulgada nesta quarta-feira (23) mostra que três em cada quatro brasileiros concordam que as bets deveriam ser proibidas. Porém, uma eventual proibição pode custar bilhões aos cofres públicos. O Ministério da Fazenda concedeu 85 autorizações a empresas do setor, cada uma ao custo de R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,5 bilhões em outorgas. As empresas fizeram outros investimentos para operar no Brasil e podem acionar a Justiça para recuperar esses valores.

O advogado Luiz Felipe Maia, sócio do escritório MyLaw, alerta que se o governo extinguir o mercado, a União ficará exposta a ações indenizatórias bilionárias envolvendo investimentos realizados, contratos celebrados, lucros cessantes e custos de desmobilização. Ele afirma que o governo passou anos construindo um mercado regulado e exigiu que empresas cumprissem extensa lista de obrigações.

De janeiro a agosto de 2026, a arrecadação federal com as bets chegou a R$ 9,9 bilhões, valor 69,3% maior que o mesmo período de 2025. A proibição agravaria o quadro das contas públicas: a mediana das expectativas para o déficit primário em 2026 já está em R$ 52,3 bilhões, segundo o boletim Prisma Fiscal.

Pela legislação vigente, as empresas pagam contribuição de 13% sobre a receita bruta após o pagamento de prêmios, além de 34% sobre o lucro líquido real, 9,25% sobre o faturamento operacional e até 5% sobre a prestação de serviços. A perda de receita atinge destinações obrigatórias para esporte, segurança pública, turismo, seguridade social e saúde.

Especialistas alertam que investidores internacionais receberão a mensagem de que, no Brasil, nem mesmo uma autorização federal onerosa e concedida por prazo determinado oferece segurança jurídica. O encerramento formal do mercado não elimina a demanda por apostas e pode empurrar consumidores para plataformas clandestinas ou operadas no exterior, sem fiscalização ou arrecadação.

Em agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,2 bilhões via Pix para plataformas de apostas. O governo bloqueou mais de 3 milhões de cadastrados em programas sociais. Os afastamentos pelo INSS por jogo patológico saltaram de um caso em junho de 2023 para 62 em junho de 2026. O atendimento a dependentes no SUS cresceu quase 140% no período.

Pesquisa do Insper e da Stone mostra que após 12 meses da primeira aposta, a probabilidade de inadimplência geral entre apostadores cresce 19,7%, enquanto os atrasos na fatura do cartão de crédito saltam 38,7%. A Confederação Nacional do Comércio estima gasto de R$ 30 bilhões por mês em apostas online em 2026.

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