O governo dos Estados Unidos passou a investir diretamente em empresas privadas desde o início de 2025, comprando ações de companhias estratégicas e até adquirindo participação em uma mineradora brasileira. A política foi ampliada pela administração Donald Trump e já movimentou US$ 26,7 bilhões em cerca de 30 acordos, segundo relatório do think tank Council on Foreign Relations. As informações são da Gazeta do Povo.
Entre as empresas com participação do governo americano estão a fabricante de chips Intel, com 9,9% das ações, e a USA Rare Earth, com 10% do capital. A USA Rare Earth comprou recentemente a Serra Verde, única produtora de terras raras em grande escala do Brasil, por US$ 2,8 bilhões. A mina fica em Goiás e deve responder por mais da metade da oferta mundial de terras raras pesadas produzida fora da China até 2027.
Terras raras são minerais usados na fabricação de chips, equipamentos de defesa e produtos de inteligência artificial. A China controla cerca de 90% do processamento global desses minerais e já usou essa posição como instrumento de pressão, segundo Allan Gallo, pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.
Estratégia busca reduzir dependência da China
A compra de participações em empresas faz parte de uma estratégia para garantir acesso a setores considerados estratégicos e reduzir a dependência de cadeias de suprimento controladas pela China. Além das participações acionárias, o governo americano também recebe parte da receita de vendas de chips da Nvidia e da AMD para a China, em troca de autorizar essas vendas.
O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais aponta vantagens na política, como fortalecimento da segurança nacional, fornecimento de capital para empresas estratégicas e sinalização de confiança ao mercado. Porém, o think tank também alerta para riscos de politização do setor privado e conflitos de interesse, já que o governo atua simultaneamente como acionista, regulador e cliente das empresas.
Política gera questionamentos sobre conflitos de papel
Especialistas questionam como o Estado pode arbitrar a competição entre empresas nas quais tem participação. O governo americano é sócio tanto da MP Materials, com 15% das ações, quanto da USA Rare Earth, que são rivais diretas no segmento de terras raras. Outro ponto de atenção é que os acordos nascem de negociação caso a caso, sem uma lei clara que defina as regras.
Um episódio contraditório ocorreu no ano passado. Trump cobrou a renúncia do CEO da Intel, Lip-Bu Tan, devido a ligações anteriores com empresas chinesas. Semanas depois, anunciou que o governo passou a controlar 9,9% da Intel por meio de um acordo com o mesmo executivo, a quem chamou de “altamente respeitado”.
