Jacques Wagner:
sem retorno ao passado.

Brasília (AG) – A luz vermelha do choque de preços do petróleo, o aumento da demanda interna e a falta de investimentos em infra-estrutura podem abortar o projeto de crescimento do País, já admite o governo. Por isso, o desafio de garantir o crescimento econômico daqui para a frente – na média mínima de 4% ao ano – está aproximando empresários, governo e trabalhadores. Alguns chamam a aproximação de pacto pelo desenvolvimento, outros de aliança tática ou de acordo para o desenvolvimento.

A costura de uma proposta mobiliza os setores sociais. Após as eleições, quando desanuviar o clima político, o governo comandará um grande acordo nacional para garantir investimentos em infra-estrutura, redução dos custos de produção, estabilidade de preços e aumento da oferta de bens e serviços. A preocupação será crescer sem inflação.

“Não vamos voltar ao passado. Não vamos fazer desenvolvimento com inflação. O pacto que estamos construindo terá dois princípios básicos: política pública de estabilidade e de desenvolvimento”, diz o ministro Jaques Wagner, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Ele explicou que a agenda para o entendimento está sendo elaborada pela Câmara de Desenvolvimento Econômico, coordenada pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu. O documento do grande acordo já tem nome: “Desenvolvimento com estabilidade e inclusão social”.

Mas não só o governo está se organizando. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) está fazendo o dever de casa: 70 empresários pesos-pesados, reunindo 31 entidades de classe, contrataram consultoria e economistas internacionais para ajudar na elaboração de uma agenda de desenvolvimento até 2015. Essa consultoria permitirá ao setor construir indicadores de longo prazo para produtividade, mercados consumidores externo e interno, investimentos, emprego e renda.

“Se o setor não tiver um olhar no futuro, como pode se apresentar ao governo? O nosso maior desafio é construir uma agenda estratégica de longo prazo”, diz o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, que chama o acordo de aliança.

Segundo ele, a agenda será concluída até o fim do ano, quando o setor estará pronto para apresentar ao governo metas de médio e longo prazos. Elas passariam também por metas sociais e de emprego. Segundo Monteiro, os estudos levam em conta exemplos de países como China e Coréia:

“Me agrada a idéia de construir uma agenda convergente com a do governo sobre o futuro?”, disse.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, lembra que a idéia de um pacto já foi tentada várias vezes sem resultado. Mas ele acredita que este é um momento propício, pois se não houver um trabalho para um entendimento, uma alta da inflação com elevação dos juros pode abortar o plano de desenvolvimento.

“Um pacto abriria espaço como um instrumento além da política monetária para a estabilidade de preços. A luz vermelha vai acender se o crescimento e o choque de petróleo acelerarem a inflação. Uma alta de juros no ano que vem poderia abortar o crescimento.”

Do lado da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a proposta para o pacto só espera um sinal do governo. O presidente da CUT, Luiz Marinho, diz que é preciso um acordo nacional para consolidar o crescimento. O pacto proposto pelos sindicalistas teria o objetivo de aumentar investimentos e a oferta de empregos.

“Pretendo dialogar com o governo sobre isso. O governo terá que liderar o acordo e acho que depois das eleições será um momento adequado”, disse.

Os compromissos de cada setor

Setor produtivo

– Estabilidade de preços, oferta de produtos no mercado interno, investimentos, meta de geração de emprego e limitação de horas extras.

Setor financeiro

– Redução dos spreads bancários, redução das tarifas, ampliação do crédito, apoio às atividades geradoras de emprego e renda.

Trabalhadores

– Negociação de política salarial de longo prazo.

Governo

Política monetária compatível com o crescimento, diminuição do compulsório bancário, desoneração do investimento, política cambial favorável às exportações, metas de redução da carga tributária associada à manutenção da arrecadação, transferência da contribuição previdenciária da folha de pagamentos para o valor adicionado e reforma tributária relativa à pequena e média empresas.