Apesar da curva descendente da taxa Selic, os fundos DI continuam sendo os ativos mais recomendados pelos analistas de mercado. Isso porque, mesmo com a queda, a taxa de juros brasileira – de 22% ao ano – é a quarta maior do mundo, atrás de Argentina, Turquia e Nigéria. “Ainda vale muito a pena fazer a maior parte das aplicações em DI, que são reajustadas diariamente pelos juros pagos pelo governo. Isso deve continuar até a metade do ano que vem”, diz o consultor de investimentos Marcelo Martenetz, da SM Consultoria Econômica. De janeiro até a sexta-feira passada (5/9), os fundos DI renderam 17,26%.
Só perderam para o Ibovespa, que registrou elevação de 41,10% no mesmo período. “A Bolsa pode continuar crescendo, mas só quem tem apetite por risco deve entrar”, alerta Martenetz. De acordo com o analista, “a queda dos juros e a estabilização da inflação levaram os investidores a aumentar a confiança no País, fazendo com que o fluxo de recursos em moeda estrangeira se tornasse positivo, elevando as cotações às alturas”. “O Lula fez discurso de esquerda e ações de direita. O mercado gostou e a Bolsa andou, mas acredita-se que a valorização expressiva não continue por prazo indefinido”, ressalta.
Quem optou por usar o dinheiro do FGTS para aplicar em ações da Petrobras e Vale do Rio Doce teve ganhos inferiores ao do Ibovespa: 29,55% e 13,27%, respectivamente, até a última quinta-feira. “O mercado não procurou necessariamente qualidade, procurou liquidez, com certas exceções”, considera Martenetz. Algumas ações que compõem o índice Ibovespa registraram altas até maiores que o índice: a Telemar, por exemplo, rendeu 51% até o dia 4 de setembro. “A entrada de dinheiro foi motivada pela confiança dos investidores. Foi um movimento inesperado, porque baixando os juros, os especuladores deveriam pular fora. Mas a baixa dos juros mostrou a seriedade da condução da política econômica”, comenta o economista.
O desempenho significativo dos fundos DI em 2003, conforme Martenez, está relacionado à devolução de parte das perdas provocadas pela marcação a mercado, que provocou quedas de até 7% nas cotas diárias quando os títulos do governo brasileiro estavam dando prejuízo. “A maior parte dos fundos DI está lastreada em títulos do governo, que voltaram a ter boa aceitação, por isso estão se valorizando acima do esperado e subiram acima do CDI (Certificado de Depósito Interbancário)”, comenta. O CDI acumula variação de 16,57% no ano. No entanto, antes de escolher um fundo DI, é recomendável analisar a qualidade. “É importante perguntar para o gerente qual a composição da carteira e como funciona o fundo em situação de instabilidade”, afirma Martenetz.
Conjuntura
Já o dólar comercial amargou a lanterna no ranking dos ativos, com queda de 17,75% em 2003. “O dólar só vai começar a subir ao redor do fim do ano, devendo fechar ao redor de R$ 3,15. Por enquanto, ainda está entrando muito dinheiro no País, o que faz o real subir”, aponta Martenetz. Acompanhando o dólar, o ouro teve desvalorização de 9,77% e os fundos cambiais caíram 9,20%. O euro acumula variação de -12,24%. Fundos de renda fixa tiveram rendimento médio de 17,06% neste ano, enquanto a caderneta de poupança registrou aumento de 7,96%.
As perspectivas do mercado financeiro para o final do ano são positivas. “Os juros mais baixos devem incentivar a economia e, com isso, teremos um Natal melhor. Isso faz a aprovação do Lula subir e o País deve entrar num círculo virtuoso”, projeta Martenetz, destacando que o corte da Selic demora três meses para gerar empregos. Na avaliação do consultor, “somente um fator inesperado, extremamente negativo, como terrorismo nos EUA, bomba no Pão de Açúcar ou arma biológica em Nova York, derrubaria as cotações”.
Antes de decidir uma aplicação, convém lembrar que, com exceção da caderneta de poupança, as demais aplicações recolhem 20% de Imposto de Renda. Nas ações, o recolhimento é mensal, e nos fundos de privatização, o pagamento é feito na saída.
Bovespa rompe 16 mil pontos e fecha positivo
A Bovespa fechou ontem em alta pelo sétimo pregão consecutivo. O Ibovespa, que reúne as 54 ações mais negociadas, rompeu a barreira psicológica dos 16.000 pontos e encerrou o dia em alta de 0,95%, aos 16.050 pontos, o maior patamar desde março de 2001. No ano, a Bolsa acumula ganhos de 42,4%, sendo 5,7% neste mês.
A expectativa de um novo corte de juros, a entrada de recursos externos e o desempenho positivo das Bolsas americanas ajudaram a manter o otimismo na Bovespa. O volume financeiro voltou a superar a marca de R$ 1 bilhão. Os negócios movimentaram R$ 1,029 bilhão.
O mercado está animado com a aposta de um novo corte de juros na quarta-feira da próxima semana, quando o Copom (Comitê de Política Monetária) anunciará sua decisão sobre a taxa Selic, que atualmente está em 22% ao ano. As expectativas do mercado variam de uma redução entre 1,5 e 2 pontos percentuais. O mercado americano também soprou positivo. O principal indicador da Nasdaq, Bolsa das ações de empresas de alta tecnologia, valorizou 1,63%, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Valores de Nova York, subiu 0,87%.
Dólar em alta
O dólar começou a semana em alta de 1,34% e fechou vendido a R$ 2,945. É a maior alta percentual desde o último dia 4 de agosto, quando subiu 1,18%. No mês, a moeda ainda acumula queda de 1,1%. Há a expectativa sobre a rolagem de dívida cambial de US$ 1,4 bilhão que vence dia 17. O primeiro leilão para renovar os papéis será amanhã. Como a ordem é reduzir a fatia da dívida corrigida pelo câmbio, o governo deve ampliar o resgate dos títulos.
“A rolagem da dívida deve ser menor, mas isso não deve estressar o mercado, pois não há uma demanda forte por hedge (proteção contra o sobe-e-desce da moeda)”, diz o analista do banco holandês Rabobank, Jorge Kattar.
Ontem, na mínima do dia, o dólar chegou a ser negociado por R$ 2,90, uma queda de 0,20, mas não conseguiu “furar” esse piso. Há a opinião de que o governo impedirá uma dólar abaixo desse nível, a fim de evitar impacto negativo nas exportações.
O setor exportador defende um dólar entre R$ 3,00 e R$ 3,20, a fim de manter os produtos brasileiros competitivos no mercado internacional.
Segundo operadores, a pedido do Tesouro Nacional, o Banco do Brasil comprou, nos últimos dias, dólares no mercado para evitar uma baixa maior da moeda.


