Rio, Brasília e Buenos Aires – A disparada dos preços do petróleo no mercado internacional está mudando o comportamento do consumidor brasileiro que, cada vez mais, busca alternativas para o carro a gasolina. O dilema é apelar para os modelos bi ou multicombustível, fazer a conversão para gás natural ou comprar um carro a álcool.

O Brasil já tem a segunda maior frota de veículos que utilizam o gás natural veicular (GNV) do mundo, com cerca de 770 mil carros, sendo superado apenas pela Argentina, que tem 1,2 milhão de veículos (13% do total da frota). Com a diferença que lá, o presidente Néstor Kirchner aplicou um imposto às exportações de petróleo para reduzir as vendas ao exterior e não prejudicar o consumidor interno com preços altos demais.

A procura por conversão para GNV tem crescido significativamente. Só no mês de setembro, foram feitas 18 mil conversões no país, 15% a mais em relação ao mês anterior. No Rio, o total de conversões foi de 7.968, com crescimento de 52%. Os números são do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP).

“Estamos no início do fim da era do petróleo”, resume R. Fernandes, coordenador do Comitê de GNV do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) e vice-presidente da Associação Latino-Americana de Gás. Segundo ele, o principal problema é que o petróleo está fortemente atrelado a questões geopolíticas, o que leva a pressão adicional sobre os preços.

Não é à toa que o carro a gás vem despertando tanto interesse. Enquanto um carro a gasolina roda nove ou dez quilômetros com um litro, um carro a gás natural consegue um rendimento de 13 quilômetros por metro cúbico. Sem falar que o litro da gasolina está custando, em média, R$ 2,10, enquanto o metro cúbico do GNV sai por R$ 1,09. A economia é da ordem de 60%, diz o gerente do Departamento de Gás Veicular da Ipiranga, Francisco Barros.

O técnico em manutenção de aviões Cristian Porto é um exemplo de consumidor que já está comemorando a redução dos gastos com combustível. Há dois meses, fez a conversão do seu carro para o GNV. “Todo dia vou de Madureira à Ilha do Governador (zona norte do Rio) e, depois, a Bangu (zona oeste do Rio), e só então volto para casa. Rodo muito. Por isso, compensa”, explica ele, que hoje gasta R$ 96 por mês e não os R$ 350 de antes: uma economia de 72,5%.

O operador de telemarketing Pierre de Freitas Sader também está satisfeito com a troca: gastou R$ 1.620 com a conversão a gás e, em sete meses, já recuperou quase todo o dinheiro investido. A economia com combustível chega a R$ 1.470. “Com o dinheiro que deixei de gastar com combustível já fiz uma atualização no meu computador. Agora estou juntando para comprar uma máquina digital”, conta.

A Ipiranga Distribuidora, que já foi pioneira no uso do gás natural, tem hoje 124 postos de revenda e planos para chegar a 140 até o fim do ano. Para isso, está investindo neste ano R$ 40 milhões só em postos GNV. Em 2008, a companhia quer ter 300 postos, diz Barros. O investimento se justifica: “Enquanto a frota atual de GNV representa 3,3% da frota total do país, a meta é chegar em 2009 com pelo menos 1,7 milhão de veículos, ou 7% da frota”, afirma o executivo.

Um dos responsáveis pelo crescimento de gás natural são os táxis. De acordo com o Sindicato dos Taxistas do Rio, 80% de 35 mil profissionais já converteram seus veículos.

Bicombustível

Mas nem só de gás vive o combustível alternativo no país. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), só este ano já foram produzidos 218.320 veículos bicombustível (que funcionam a gasolina e álcool, os chamados flexfuel). Outros 35.497 foram carros exclusivamente a álcool. Em setembro, 32,1% dos carros comercializados eram flexfuel ou a álcool. Ou seja, esse era o perfil de um em cada três carros vendidos no país. Em 2002, o percentual era ínfimo: 4,3%.

Pesquisa em concessionárias de veículos do Rio constatou que os carros a álcool, apesar de raros, são vendidos rapidamente. Os modelos antigos são vendidos, no máximo, em três dias. “Quando chega algum modelo a álcool, vendemos no mesmo dia”, diz Rogério Carvalho, vendedor da Simcauto.

Apesar de o governo ter prometido incentivar a produção e o consumo dos carros multicombustível (também movidos a gás natural e álcool), até agora, os estudos para reduzir os impostos desses veículos não avançaram. Por enquanto, só há incentivo fiscal para os carros bicombustíveis. Os modelos mais caros, acima de mil cilindradas, tiveram uma redução de dois pontos percentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O tratamento é o mesmo dado aos carros a álcool.

Segundo fontes do governo, o governo está disposto a ampliar o mercado para a indústria nacional: está em estudo uma medida para transferir para o Japão a tecnologia do carro bicombustível (flexfuel).

Investimento de US$ 3 bi até 2010

Quem está muito satisfeita ao ver a ampliação do mercado de gás natural no país é a Petrobras. Afinal, a estatal tem reservas conhecidas de 316 bilhões de metros cúbicos de gás natural, além de outros 400 bilhões descobertos na Bacia de Santos no ano passado. Para atender a ampliação do mercado do gás natural, não apenas para fins veiculares, mas em outros setores, como na indústria, e para geração de energia, a Petrobras está aumentando seus investimentos. A companhia prevê investir US$ 3 bilhões até 2010 para ampliar a oferta do gás em todo país, incluindo a construção de uma grande malha de gasodutos.

A Petrobras prevê que o consumo do gás natural crescerá a taxas de 14% ao ano até 2010. Já para os combustíveis derivados do petróleo deverão ter uma taxa de crescimento anual da ordem de 2,4%. Com isso, o consumo, que atualmente é da ordem de 35 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, deve passar a 77,6 milhões em 2010. Esses volumes consideram o consumo nos setores de energia, indústria e outros, não levando em conta o gás consumido pela estatal em suas unidades. Com esses recursos, a estatal planeja construir várias redes de gasodutos interligando Nordeste e Sul do país.