O Federal Reserve (Fed, o BC americano) anunciou ontem a elevação de sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para 2,5% ao ano. A taxa do banco vem aumentando neste ritmo em todas as últimas seis reuniões do banco, desde junho de 2004 (em julho e outubro do ano passado e em janeiro deste ano não houve reunião) em razão do reaquecimento, ainda que inconstante, da atividade econômica nos EUA. A ação já era esperado pelos economistas e pelo mercado financeiro.
O banco vem anunciando ao fim de cada reunião que a atual tendência de alta nos juros americanos segue em ritmo "moderado" para conter pressões inflacionárias no país. O remédio, no entanto, parece estar surtindo apenas um pequeno efeito. O CPI (sigla em inglês para índice de preços ao consumidor), um dos indicadores econômicos dos EUA observado com maior atenção, registrou deflação de 0,1% em dezembro no país, mas isso por conta da forte queda nos preços dos combustíveis e custos de energia.
Apesar do resultado menor em relação a novembro -quando a inflação subiu 0,2%, – o núcleo da inflação (que exclui os preços de alimentos e energia) em dezembro subiu 0,2% no mês passado, acumulando 2,2% de alta em 2004, a maior taxa desde 2001, mas abaixo da média de 2,8% dos últimos 14 anos.
Os preços dos alimentos se mantiveram estáveis em dezembro, mas em novembro a alta registrada foi de 0,2%. Para 2005, as previsões dos analistas mostram que os preços ao consumidor deverão subir 2,5%.
Os preços no atacado também refletiram o efeito da queda dos preços de energia, registrando queda de 0,7% no mês passado – maior queda desde abril de 2003, contra aumentos de 0,5% em novembro e de 1,7%% em outubro. O núcleo da inflação, por sua vez, subiu 0,1%.
No ano passado, a inflação no atacado acumulou alta de 4,1%, maior alta desde 1990. O núcleo da inflação, por sua vez, acumulou em 2004 alta de 2,2%, contra 1% de aumento em 2003.
PIB
Os dados sobre o crescimento econômico dos EUA tampouco apontam para uma direção clara. O PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas em um país) americano cresceu 4,4% em 2004, o melhor resultado desde 1999.
No quarto trimestre do ano passado, no entanto, o crescimento foi de 3,1% (taxa anualizada), contra 4% (anualizados) no terceiro trimestre do ano passado. O deflator, que serve para atualizar os valores utilizados no cálculo do PIB, subiu 2% no período, contra 1,4% no terceiro trimestre.
O déficit fiscal dos EUA deverá ficar em US$ 368 bilhões (R$ 986,7 bilhões), cerca de 3% do PIB, neste ano fiscal (que termina em 30 de setembro), segundo projeção divulgada na semana passada pelo Comitê de Orçamento do Congresso.
No ano fiscal encerrado em setembro passado, o déficit registrado foi de US$ 412 bilhões (R$ 1,1 trilhão). Para este ano, a previsão anterior era de US$ 348 bilhões (R$ 933,1 bilhões), abaixo da cifra divulgada ontem. O comitê ainda projeta um déficit fiscal de US$ 855 bilhões (R$ 2,29 trilhões) entre 2006 e 2015.
Emprego
A situação do mercado de trabalho norte-americano, segundo o "Livro Bege" do Fed, "continua lento". A economia americana gerou 157 mil postos de trabalho em dezembro, contra uma expectativa de 175 mil dos economistas.
Em números absolutos, no entanto, o resultado é positivo: o número de empregos gerados em 2004 atingiu 2,2 milhões, maior resultado desde 1999, quando surgiram 3,2 milhões de novos empregos no país. Em 2003, o mercado de trabalho americano fechou o ano com um déficit de 61 mil postos de trabalho.
Já a taxa de desemprego se manteve em 5,4%, totalizando 8 milhões de pessoas. O desemprego nos EUA vem variando entre 5,4% e 5,5% desde julho, ligeiramente abaixo dos níveis do primeiro semestre do ano passado.
Decisão mexe com economia
Com rendimento maior, os títulos do governo norte-americano – considerados as aplicações financeiras mais seguras do mundo, com risco próximo de zero – atraem investimentos que, em tese, se sujeitariam a riscos maiores, como ações, dívidas públicas e privadas e o câmbio de moedas.
Na prática, o aumento dos juros nos EUA motiva uma completa realocação dos investimentos a partir de novas percepções de risco. Como o investimento de risco zero paga um juro maior, quem aceitava correr um pequeno risco para ter um rendimento um pouquinho melhor perde essa necessidade, pois pode ter o mesmo ganho sem risco algum.
O mesmo acontece para os investidores mais arrojados que se submetiam a um risco maior ainda para ganhar bem mais. Com o aumento dos juros pagos, esse investidor não precisa correr tamanho risco para ganhar a mesma coisa.
Por risco, entenda-se simplesmente a possibilidade remota, eventual – ou mesmo improvável – de não receber o dinheiro investido.
O mercado considera como de alto risco papéis de países emergentes – como o Brasil -, além de títulos de empresas em dificuldades financeiras. É por isso que o aumento nos juros norte-americanos quase sempre coincidem com o retorno de dinheiro aos EUA, valorização internacional do dólar e melhor financiamento do déficit das contas externas americanas.
Esses movimentos são ainda acompanhados pela diminuição dos investimentos em países emergentes e pelo fim do dinheiro barato disponível para esses países.