Brasília – Num recado duro ao Brasil e ao Mercosul, o novo chefe da delegação da Comissão Européia em Brasília, o diplomata espanhol Alberto Navarro, disse ontem que, se o Brasil e os demais sócios do bloco não flexibilizarem suas posições, 2004 será um ano perdido em termos de avanços nas negociações para um acordo de livre comércio. A expectativa inicial era de que o tratado entre os dois blocos comerciais fosse assinado em 2005.

Sem prometer nada em troca, Navarro cobrou do Brasil a aprovação de 17 acordos de investimentos no Congresso Nacional, o que daria, segundo ele, maior garantia jurídica aos empresários europeus. Além disso, deu a entender que as pressões para que as compras governamentais sejam negociadas no acordo bi-regional tendem a crescer ainda mais e, portanto, não são uma prerrogativa apenas dos Estados Unidos.

“A participação do Brasil no comércio exterior europeu é de apenas 1,7% e o Mercosul como um todo não chega a 3%. Ou seja, atrair nossa atenção, num momento em que negociamos o alargamento da UE, a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC) e um acordo com os países do Golfo, que tanto interessam às empresas petrolíferas européias, fica difícil, se não houver uma flexibilização. Sem contar que em junho de 2004 haverá eleição para os novos comissários europeus”, advertiu Navarro.

Por outro lado, o delegado europeu se recusou a admitir que existe protecionismo na UE. Segundo ele, a Europa é a maior importadora de alimentos do mundo e as exportações do Brasil para a região aumentaram 20% este ano, enquanto as importações só cresceram 10%.

“Em 2002, o Brasil teve um superávit com a União Européia de US$ 2 bilhões, podendo subir para US$ 4 bilhões este ano. Por isso, não é tão simples falar em subsídios agrícolas para nós”, destacou.

Ao ser lembrado que os subsídios europeus provocam distorções no mercado internacional, Navarro argumentou que, com a reforma da política agrícola européia, as coisas deverão melhorar.

Para ele, as semelhanças entre Brasil e Europa são maiores do que as diferenças existentes entre brasileiros e americanos. Ele ressaltou que, enquanto os EUA só estão pensando em comércio, a UE quer uma integração mais ampla, incluindo o lado político.